sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

A torre na planície (de Alma Welt)

         A torre na planície - óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 2014

A torre na planície (de Alma Welt)

Sonhei com uma torre na planície
E meu cãozinho corria para ela.
Era rara, distante, altiva e bela
Emergindo da alma à superfície.

Percebi que era um farol desses de milha
Para orientar gáltchos perdidos
Que navegam seus pintados na coxilha
E não torre de capela pra pedidos...

Por aqui os navegantes são peões
Ao sabor do vento frio minuano
E por isso veio aqui dom Garibaldi *

Que atravessou o plaino com lanchões *
Em carros de bois no mano a mano,
Esforço hercúleo, heroico mas debalde.

.
03/02/2017

Nota
* E por isso veio aqui dom Garibaldi
*Que atravessou o plaino com lanchões - célebre episódio épico da Revolução Farroupilha (Guerra dos Farrapos), quando Giuseppe Garibaldi transportou enormes lanchões em carros de bois puxados por doze juntas de bois cada, através de muitas milhas pela coxilha para colocá-los a navegar na Lagoa dos Patos para enfrentar em batalha naval os navios imperiais.

sábado, 17 de setembro de 2016

A Salamanca do Jarau

"Vê, a Terra se estende ante teus pés,
Toda ela te espera, pois nasceste.
E cabe a ti, não o comando das marés,
Mas o dos teus passos, pois cresceste,"

"Ao oeste, norte, sul, rosa dos ventos,
Até encontrares o vento cor de rosa
Prometido pelos deuses dos momentos,
Aos seus poetas do verso quase prosa..."

Assim me disse meu pai ante um umbu,
Como um druida com a barba branca
Num ritual de espantar a Salamanca,

Aquela do Jarau, chê, mito pampeiro,
Versão gaúcha de Tristão ou "l'amour fou",
Que haveria de tomar-me por inteiro...


.
15/09/2016

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Refugando no Portal (de Alma Welt)


Chegando junto ao portal alto do Céu,
Estreito que o achei pra tal altura
Digo ao porteiro, assim, sem escarcéu:
"Estou acostumada com a "llanura"

Pois minha porta era mais larga, mil perdões,
E qualquer gaudério tinha livre passe
Desde, claro, que com as boas intenções,
Ou cansado, de passagem, só pousasse.

Senhor, peço-te que diga ao teu Patrão
Que espero que me mande logo embora
E nem sequer me abra o Seu portão

Pois já era feliz na minha planura,
Pelo menos bem mais do que agora,
Pelo que avistei pela abertura..."

sábado, 14 de junho de 2014

Recordações II (de Alma Welt)


Se uma guitarra soava na coxilha
Eu me punha alvoroçada, era guria,
Do piano de meu pai eu era a filha
Mas qualquer paixão me divertia...

E eu corria saltando pelas trilhas
Até encontrar o tal gaudério,
Para convidá-lo a um refrigério,
Que por certo cavalgara muitas milhas.

E com a chaleira chiando num tripé,
Tome charla, milonga e chamamé,
De noite na fogueira sob a lua...

E eu pensava que o mundo ali estava
E que nada do que importa me faltava,
Que a vida era bela e estava nua...

domingo, 25 de maio de 2014

Charla gaudéria (de Alma Welt)


Necessitamos pesar bem as palavras
Pois que elas são o rastro que deixamos
Para que não deixem como as cabras...
Tão vazias suas trilhas e seus ramos.


Sejam as nossas palavras as sementes,
Raízes ou florida beira-estrada
Que bonita impressão deixa nas mentes,
Tesouros vagos que a memória guarda...

Um calão ou dois por ano se permite
Para que fiquemos insuspeitos
Do nariz empinado de uma elite.

Mas se isso deixa a vida muito séria
Colocando oprimidos nossos peitos,
Seja vulgata meu latim: charla gaudéria...

sábado, 3 de maio de 2014

De volta à terra (Alma Welt)


         O pampa de Alma Welt - tela de Guilherme de Faria

De volta à terra (Alma Welt)

Voltar a minha estância eu bem queria
Quando tiver que “ir daqui para melhor”,
Pois não desejo nada mais do que eu via
Quando ao chegar lancei os olhos ao redor...

Quê me importa o paraíso ou o Éden,
Com os anjos que tangem as suas harpas,
Entre as nuvens altas que não cedem,
Se sou como Prometeu entre as escarpas?

Meu Pampa é minha Terra Prometida,
Eu sei porque o senti no coração
Quando uma vez a vi quase perdida...

Senhor, lançai-me de cabeça, pelos pés,
De volta à minha terra, neste chão,
Nem que seja pra calar-me de uma vez...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

No Reino de Vista Grossa (de Alma Welt)


No meu reino elementar de Vista Grossa,
Decadente mas belo em seu ocaso,
Fiz do plaino da coxilha meu Parnaso
E dos versos meu canteiro e minha roça.

Tudo corrobora esta Poesia,
E nada a prenda que nem fui,
Que meu mito pessoal não contribui,
Que beijar um sapo eu não podia...

Todavia os peões e os gaudérios
Souberam respeitar esta princesa
Com seus encantos e mistérios...

E agora que o mate se acabou
E o vinhedo não me dá senão despesa,
Aqui resto: minha alma me encantou...
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Desabafo (de Alma Welt)


Sejamos francos: a vida foi mal feita,
Passível de doença e sofrimento.

E a morte, então, que nos espreita
A vida inteira e a todo momento?

"Que tontería, báh!" Diz o gaúcho
Que prefere a faca na bainha,
Mas se troca a de prata por um bucho
Por certo para alguém é o fim da linha.

Mas deixando de lado a gauchice
E retornando à condição humana
(esqueçam o que eu há pouco disse),

O mal da vida, em si, é essencial,
E não o mal estar que dela emana.
Consiste em ser efêmera, afinal...

domingo, 6 de outubro de 2013

O Retorno (de Alma Welt)



O Pampa de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria
 
 
O Retorno (de Alma Welt)

Havemos de voltar, eu e os outros
A este Pampa meu predestinado,
Onde corri, guria, com os potros
E o meu ser então ficou colado.


Não temo que este belo corpo troque,
Mas sim outro lugar longe daqui.
Não suportaria um Oiapoque
Esta Alma que foi feita pro Chuí...

“Quanta besteira!” diz Matilde rindo até.
“Não sabes que irás pro Purgatório
Já que em nossa Igreja não tens fé?”

E eu retruco: “Nem que seja o Paraíso
Meu porto de chegada obrigatório,
Peço a Deus meu Pampa em Seu juízo...”

domingo, 15 de setembro de 2013

Meus floridos campos (de Alma Welt)

 
Báh! meus floridos campos, não me esqueçam!
Lembrai quão fiel vos fui desde guria,
Correndo em vossas trilhas que não cessam
De florir mesmo sem a minha poesia...

Sempre quis acreditar que vos pertenço
Como a relva baixa e o umbu sombreiro,
Como essa ondulação como de um lenço,
E o minuano, crina solta do pampeiro...

Quanto cantei em versos minha coxilha!
E mais eu não pudera assim cantá-la
Se, não só adotada, eu fosse filha...


Olhai, quando eu me for quero restar
Como o pólen no ar e não na vala,
E que então meu pó na luz ame dançar!


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ricordanze (de Alma Welt)


Quando guria, com meus pais e meu irmão,
Com as irmãs também, que as não esqueço,
Eu já tinha, pois, completo o coração,
Mas saber da missa mesmo só um terço.

Conhecia o chamado “mal do mundo”
Pelos livros, certamente, e de sobejo,
Mas pensava que tudo era profundo

 Ou um singelo cartão de realejo...

A vida era bela e aconchegante,
Embora vez por outra perturbada
Pelo sangue derramado num instante,

Que era quando um peão se apresentava
Com as tripas na mão ensangüentada:
“Meu patrão, ouvi dizer que costurava...”

domingo, 30 de junho de 2013

Pedindo a mão da prenda (de Alma Welt)


Já também por aqui baixou o Cujo
Com aquelas feições de um peão macho
E eu então que não sou um caramujo
Me espevitei diante daquele barbicacho.
Era eu guria, ingênua e bela
Pensava só que o mundo era pra mim,
Que eu reinaria do alto da minha sela
Sobre o vento nestes campos do sem fim.

Então o forasteiro achando graça
Pediu-me a mão de prenda pro maestro
Estancieiro, meu pai, de feição macha.
Mas recordo do velho o tom certeiro:
“Senhor, esta prenda tem um estro
Só a cedo pro Maior Estancieiro...”

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Crônica gaudéria (de Alma Welt)


Vinha o gaúcho no cavalo pela senda
Que atravessa nossa estância decadente,
O olho esquerdo escondido sob a venda,
O chapéu de aba dobrada só na frente...

E chegando ao pé da minha varanda
Sob o queixo o nó desfez do barbicacho
Para saudar-me como a cortesia manda,
Com uma contida vênia, muito macho.

“Buenas, patroinha, e me perdoa
Por tirar-te os belos olhos desse livro,
Mas devo fazê-lo ainda que doa...”

“Acabo de calar um tipo à toa
Que achei que não podia ficar vivo
Por contar que eras a lua na lagoa...”

sábado, 16 de março de 2013

Para além do fim do mundo (de Alma Welt)



                                                     Foto: Arroio do Chuí

Para além do fim do mundo (de Alma Welt)

Chegaremos ao fim do Fim do Mundo
Se atingirmos do Chuí o arroio.
Para além, de onde o vento é oriundo,
Não te posso garantir maior apoio...

Este nosso é o Pampa verdadeiro
Que nos ousaram disputar os castelhanos
Mas levaram pranchada e tiroteio,
Isso foi naturalmente há muitos anos.

Há quem diga que nada lá vai dar
E que o Minuano faz a curva
E volta com mais sanha de gelar

E como nos extremos acredito,
Não bebo do riacho de água turva:
Guarda ainda o veneno do conflito...
 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Os Ausentes (de Alma Welt)


Retornem, bah! retornem, meus fantasmas!
Minhas noites estão vazias e carentes...
A quem atribuir as minhas asmas
Sem vocês, apaixonados, não ausentes,

Que me faziam vagar nos corredores
Ouvindo atrás da portas com emoção
Na penumbra do palácio de rumores
Em que se transformava o casarão?

Todos afinal me abandonaram!
A casa está vazia faz um ano
E as doze no relógio ressoaram

Sem que Anita venha como outrora
Contar suas noites com o italiano,
Indiscreta pois com ele ainda mora...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Alma Cicerone (de Alma Welt



Entrem, meus amigos, não se assustem
Ou estranhem a penumbra destas salas;
Bento e Canabarro ainda discutem,
De noite ainda ouço suas falas...

Me acompanhem por estes corredores
E não temam os sussurros e murmúrios;
São as tristes confidências de temores
Reais e femininos, nada espúrios...

Neste quarto, Anita e o marinheiro
Se encontravam e dormiam pela graça,
Conquanto fosse ele companheiro...

Se neste casarão reinava o amor,
Tal império não há quem o desfaça
Embora ainda e sempre cause dor...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O sonho (de Alma Welt)


 
 
 
Sonhei que ainda guria cheguei perto,
De conhecer um outro ser humano.
Era no Pampa o meu sonho desperto

E eu jogava truco com meu mano...
 

A coxilha transmutou-se em Paraíso
Com um umbu no centro e tudo mais;

A gente se apalpava em desaviso
Sem dar conta que nos via o Capataz


Que logo surpreendeu-nos em flagrante
Agarrando-nos os cabelos e o pulso,

Não lhe faltando a lança e o berrante.

E vi que a gauchada em torno ria
Gerando ali meu estro e meu impulso

De amar e perdoar tudo o que eu via...





 

domingo, 8 de julho de 2012

A Herdeira do Minuano (de Alma Welt)

 
Entre os ventos que melhor conheço,
O vento Norte, o Oeste e o Minuano
Deste último o pânico padeço
Pois sei que me espreita ano a ano.

Ele virá me buscar, eu o pressinto,
Pois ouvi a sua voz dentro das noites
Que dizia: “Minha Alma, não te acoites
Se teu vinho não sou, mas absinto...”

“Levar-te-ei comigo em minha sela
Pela coxilha que conheço e que amas,
Mas pra ti não haverá nenhuma vela.”

“Varemos esta escuridão pampeira
Pelos campos e estradas, relvas, lamas,
E serás minha rainha e minha herdeira...”
 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Tempo Vento (de Alma Welt)

Gaucho- pintura de Juan Manuel Blanes
Tempo Vento (de Alma Welt)


O tempo em ninharias despendido,
Em gaudérias peleias e desmando
Nos será cobrado ou repreendido
Pela alma vigilante em seu comando.

Tempo esse que nos estertores volta
Na forma de remorsos ou vergonha,
Em suspiros que o moribundo solta
A cabeça pousada sobre a fronha.

Que não mais se erguerá, embora tente,
Como é dado ao gaúcho que cochila,
Não se puxa mais a rédea, de repente,
Trilhando, à noite, a passo este bagual,
Pois não temos como retornar à fila
Se já perdemos o lugar em Portugal...

terça-feira, 20 de março de 2012

Ecos no Casarão (de Alma Welt)

Vê, senhor, bem lá adiante o casarão
Que reina na coxilha há três séculos
E em que hoje após a ceia e no serão
Começarás a ouvir antigos ecos,

Que previno, podem nos dar arrepios
Pois os choros e suspiros tão pungentes
Nos vem como os ventos e os rios
Da escuridão de tempos inclementes.

São vestígios das dores das batalhas,
Dos bravos farroupilhas as lindas prendas
Deplorando a derrota e suas malhas,

Também o pranto e os suspiros de paixão
De Anita a maior das nossas lendas
Que na Itália aconteceu voltar ao chão...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lembrança da avó Frida ( de Alma Welt)

De repente eis-me de volta àquele dia
Em que olhei de longe o casarão
E depois me aproximei por esta via,
Passei pela porteira até o portão

E subindo os degraus desta varanda
Penetrei pela porta principal
No salão onde o Tempo já não manda
E um disco marca um ritmo ancestral,

Então caí nos braços da avó Frida
Que eu nem sequer ainda conhecera
Mas que poria poções em minha vida,

Ela, feiticeira de outros tempos
Que me ensinou a fazer velas de cera
Contra o mau-olhado e contratempos...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

No Túmulo do Vati (Alma Welt)



No Túmulo do Vati* (Alma Welt)

O receio de morrer longe do Pampa
Me fez retornar da Paulicéia
Para escolher a minha campa
Onde há de findar minha odisséia

Bem no alto da colina dos avós
Onde estão os velhos vinhateiros,
Joachim, o boche e Frida, pioneiros
Das uvas plantadas nestes pós.

Ali onde estão também os restos
Daquela que eu chamava "Açoriana"*
Co'a distância de meus íntimos protestos.

Mas sobretudo o leito do meu Vati
Simples laje e flores sobre a grama
Com um meu haikai como arremate.


Nota
* Vati - Pronuncia-se Fáti (Papai) diminutivo de Vater (pr. Fáter), pai em alemão). É como a Alma chamava seu pai, Werner Friedrich Welt, que ela adorava. Frequentemente, nos sonetos ela também o chamava de "o Maestro", pois ele era um excelente pianista amador.

* Açoriana- Alma tinteve um relacionamento difícil com sua mãe, Ana Morgado, que não a compreendia e tentava reprimir seus temperamento artístico e seus arroubos. Ana era neta de açorianos, e a Alma se referia a ela assim nos sonetos, como um distanciamente mítico. Isso foi a fonte de um grande sofrimento da poetisa desde a infância, pela vida afora. Na morte elas se perdoaram: há um belo soneto sobre isso.
No Túmulo do Vati* (Alma Welt)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Esporas (de Alma Welt)

Vinha o gaúcho montado com esporas
E estacou o pingo ante a varanda
E pediu "trabalho só por horas"
Pois que "assim a sorte não desanda".

Então apontei-lhe os esporões
De galo orgulhoso e irreverente
E exigi que arrancasse esses latões
Pois aqui o cavalo é também gente.

Ele, que o bigode só, se abaixa,
Colocou a mão naquela prata
Do cabo que emergia de sua faixa.

Mas diante do meu olhar seguro,
Ao curvar-se enfim ele desata
As estrelas, que jogou pr'atrás do muro...

(sem data)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Nossa Saga (de Alma Welt)

Vivi somente pra contar o que vivi
Embora isto pareça absurdo
Ou no mínimo um monólogo pra surdo
Pois o que importará o que senti

Ou as minhas aventuras de guria
Que nada leva a crer a relevância,
Tanto mais que se passam numa estância
E num velho casarão em nostalgia

A remoer nosso passado glorioso
E querendo que o soneto nos reflita
Malgrado vaidade e um tom verboso.

E eis que a Musa generosa reconstrói
Em mim a heroína e o seu herói:
Sou eu mesma a minha amada Anita...

(sem data)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Os Círculos (de Alma Welt)

Minha vida está inscrita em círculos.
“Não podes então andar pra frente?”
Aqueles que questionam os meus vínculos
Me perguntam em tom meio reticente...

“Deixa essa estância e fim de mundo,
Pois aí o minuano faz a curva
E volta pois não pode ir mais fundo
Depois de te deixar a mente turva,”

“Que estás a ver navios antigos,
E mais: com tua tendência delirante
Já fazes dos fantasmas teus amigos.”

“Já pediste ao teu Galdério, coisa à toa:
Que construa grande traste navegante
E o arraste com bois até a lagoa...”

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Noites do casarão (de Alma Welt)

Minhas noites aqui neste casarão
Há muito já não me trazem paz,
As correntes arrastando pelo chão
Ou coisas que o valham, lá de trás,

Ais, sussurros, alaridos e patadas
Povoam desde o sótão ao porão
De vultos e memórias assombradas
A casa decadente, em profusão.

Mas eu tolero tudo isso por amor
Da sombra forte e doce da heroína
Que me honra repartindo a sua dor,

Anita, que eu espero na fronteira
Valhacouto da amiga derradeira
Entre a vigília e o reino da morfina...


(sem data)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os adeuses do Pampa (Alma Welt)

As constantes lições da Mãe Natura,
Aqui são, eu o sinto, as mais sutis,
Neste Pampa que nos trata com brandura
Mas não tolera os covardes e servis.

Eis por que o gaúcho é altaneiro
Pois a coxilha misteriosa seleciona
Aqueles que ela acolhe por inteiro
E insere em seu fantástico bioma

Que inclui os espectros e os deuses,
Se quiseres entender sua magia
E sua vocação para os adeuses,

Pois devo despedir daquela Anita
Ou do italiano que à luta nos incita,
Se daqui me vou, no trem, desde guria...

(sem data)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Contando sílabas

Viver nesta Pampa sem criar,
Não parecia justo desde o início
Com esta Mãe Natura tão sem par
Que não tolera bem tal desperdício

E conta com meus versos como ventos,
Como aves revoando em alegria,
Com meus solenes passos meio lentos
Ou mancando por andar na pradaria

A contar nos dedos, sem desdouro,
Pra levar pro capataz Alexandrino
Pé-quebrado sem sequer chave de ouro.

E o gaúcho que me vê nesta coxilha
Já não pensa, creio eu, que desatino.
Sorri, cabeceia e segue a trilha...

(sem data)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Raízes e metáforas (de Alma Welt)

Estar em sintonia com a Vida
Que pulsa ao meu redor na natureza
É algo necessário, com certeza,
Pra que poeta seja e logo lida.

Pois se sonhos cultivasse longe disso,
Querer seria lançar ecos e raízes
No passar do vento e o rebuliço
De meus pequenos erros e deslizes...

Mas sentir meus pés no mesmo chão
Que acolheu aquela Anita como filha,*
Após subir a bordo de um lanchão,*

Não cânfora de um Vate lá de fora,*
Mas consagrando o mar desta coxilha,
Antes pura metáfora na aurora...

26/04/2006

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A Druidisa (de Alma Welt)

Sacralizar a vida, redundância,
Que sagrada é e por princípio,
Reitero-o no âmbito da estância
Desde cândida guria neste sítio,*

Aos oito vinda daquele novo burgo *
Que já fora belo e mais germânico,
Quando o Vati, como bardo, demiurgo*
Pra cá nos trasladou sem nenhum pânico.

Fui infanta, sou princesa e druidisa
Só não colhendo o visgo dos carvalhos,
Que aqui são do umbu os grandes galhos...

Mas a herança dos mortos permanece
Na coxilha que a guerra não esquece
Seus farrapos ondulando pela brisa...*

Notas
*...neste sítio- Com "sítio", aqui, Alma quer dizer simplesmente "lugar".

*...novo burgo- Alma se refere a Novo Hamburgo, a cujo caminho nasceu na estrada e onde viveu até os oito anos. A cidade às vezes é chamada de Hamburgo Velho (pelos moradores muito velhos) em referência ao seu passado de colônia alemã.

* ...o Vati, como bardo, demiurgo...- "bardo", esta rica palavra que quando escrita com maiúscula se refere aos poetas celtas antigos, como aqui está escrita com minúscula está se referindo a uma espécie de curral mutável, onde ficam de noite as ovelhas para estercar a terra. Alma que dizer que o Vati (papai, em alemão, pr. Fáti) como um demiurgo (um deus criador) nos trasladou para a estância como um pequeno curral mutável, de ovelhas.

*...druidisa - Os druidas e as druidisas, sacerdotes e sacerdotisas dos celtas, colhiam com a foice de ouro o visgo dos ramos dos carvalhos para fazer uma poção mágica que lhes dava força e longevidade.

*Seus farrapos ondulando pela brisa...- Alma se refere às lembranças da Guerra dos Farrapos.
(Lucia Welt)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Manhãs de minha estância (de Alma Welt)

Tão belas manhãs de minha estância!
Estão dentro de mim, por isso belas,
Porque nunca lhes falta substância,
Que eu sempre sentiria falta delas

No exílio, em terras de além mar
Ou mesmo somente um pouco ao norte
Onde cessam as carícias ao olhar
Que se torna avaro ou sofre um corte

E não pode voar a extremos pagos
Como o pingo em disparada na coxilha
Ou os gestos do peão em grandes rasgos

De orgulho, entusiasmo e afeição
Enquanto em trote bravateia pela trilha
A me escoltar de volta ao casarão...

06/04/2006

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Vigília espectral (de Alma Welt)

No silêncio crepitante da candeia
Recebo estancieiros de outra era,
Que comigo vêm plantar à meia
Sua seara de sonhos e de espera.

E eu os acolho em minha vigília,
Cavalhada espectral e exangue
A formar imensa teia na coxilha,
Penélope de mágoas e de sangue.

Quem espera essa tropa de farrapos,
Contrastando com os tais engalanados
Neste plaino abandonado pelos sapos?

Don Sebastião não seja, mas o Bento,
Canabarro e Netto, os três montados,
Anita e Pepe no turbilhão do vento...

08/07/2004

Divagação (de Alma Welt)

Por vezes me sinto envergonhada
De divagar assim mais do que a média,
E ter tantos privilégios, e por nada,
Mormente ao ver tanta tragédia

No mundo lá fora, ou mesmo aqui,
Neste pampa que não é uma redoma
Mas cenário de guerras num bioma
Onde viveu outrora o guarani

Que sofreu carregando tanta pedra
Em nome de um Deus de muito longe,
Um tanto parecido com um monge,

Mas que nos comovia o coração
Pela extrema brandura do sermão
Do grão que cai na terra, morre e medra...

(sem data)

domingo, 27 de junho de 2010

A Geada e o Vinhedo ( de Alma Welt)

Galdério acordou-me, hoje bem cedo,
Não para olhar a geada na coxilha
Mas para vigiar nosso vinhedo
Mal protegido dessa dúbia maravilha

Debaixo de uma lona estendida,
Conquanto esteja mais que em perigo,
Talvez perdido mesmo como a vida
Desta tola vinhateira embevecida

Que mais preza o manto de beleza
Descido deste céu azul gelado
Do que uma safra sem grandeza...

Está tudo perdido, há muito eu sei,
Submissa a um destino anunciado:
Depois de mim, o Dilúvio que plantei...


(sem data)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Entre o mate e o verso (de Alma Welt)

Sonetar pra mim tornou-se hábito,
Conto sílabas e rimo a caminhar
Pela coxilha ao largo de onde habito
Ou sobre a relva escura do pomar.

Eis que diante da minha macieira
O soneto tende a um velho rito
E alguma falsa rima de estradeira
Desvanece e dá lugar ao Mito...

Mas onde o verso meu mesmo transcende
Longe do altar dos velhos deuses
É junto ao fogo que o gaúcho acende

Na vigília bravateira do meu mate
Co’as Marias, as Três e seus adeuses,
Sob o olhar do grande, eterno Vate...

(sem data)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

De puro coração (de Alma Welt)

Como eu rodava em baile de galpão!
Eu e Rodo, jovens, tão felizes,
Às vezes cometendo alguns deslizes
Que não devo na frente de peão:

Um beijo daqueles, de querência
Ou um ardente olhar testemunhado
Por bombachas rivais, ali ao lado,
Que nos estranhavam tanta ardência!

E no final uma peleia deslocada,
Pretexto para compensar o espanto
E o desejo pela prenda inalcançada.

E eu, leve, muito solta e... leviana,
A pensar que a vida era um encanto,
Que puro coração jamais se engana...


08/09/2005

sábado, 22 de maio de 2010

Quando a névoa baixa (de Alma Welt)

Quando a névoa baixa na coxilha
Como um mar brumoso de memória
E ao longe emerge como ilha
Uma fronde de umbu em sua glória,

Meus passos perseguem uma trilha,
Que sinto palpitar sob meus pés,
De uma outra adotada como filha
Deste Pampa de batalhas e revés,

Aquela catarina de Laguna,
Que vem ser marinheira de italiano
Nestas ondas macias como duna,

Verde ventre de dois seres oriundos:
Eu, exilada de um seio açoriano,
Ela, heroína de dois mundos...


Notas
*Verde Ventre- o pampa ondulado ou uma engenhosa alusão à "barriga verde", como os gaúchos apelidam depreciativamente os irmãos "catarinas " (catarinenses).

*seio açoriano - Alma era filha de uma catarinense
descendente de açorianos, e nasceu na estrada a caminho de Novo Hamburgo onde passou a primeira infância antes de ser transplantada (aos 8 anos) para o Pampa, na estância dos avós alemães que vindos também de Santa Catarina (vale do Itajaí) , plantaram um vinhedo pioneiro em pleno Pampa.

* heroína de dois mundos
- Giuseppe Garibaldi, tendo lutado na Itália, no Brasil e depois novamente na Itália, foi chamado "o herói de dois mundos". Anita Garibaldi, catarinense, depois gaúcha adotiva, depois da Guerra dos Farrapos foi com Giuseppe quando este voltou para a Itália e lá lutou ao seu lado pela liberdade, lá morrendo . Então Alma a chama também de "heroína de dois mundos". (Lucia Welt)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Os Hóspedes da Noite (de Alma Welt)

Meu casarão respira a gerações
Que remontam a célebres guerreiros
Que de noite ainda vêm, assombrações
De generais e seus mil negros lanceiros.

Bento e Netto, os hóspedes de fama
Sempre vinham planejar e matear,
Enquanto as mulheres... na azáfama,
Falsa rima pro servir e sussurrar.

Pé ante pé, de noite, se esgueiravam
Por corredores, e nas cerradas portas
Colavam seus ouvidos e auscultavam,

Corações em farrapos que sangravam
Pelos dias de agonia e horas mortas
Por aqueles que a guerra tanto amavam...

(sem data)

sábado, 17 de abril de 2010

Perfil da Alma (de Alma Welt)

Oriunda de dois mundos, peregrina
A buscar a Beleza em toda parte
Aqui, onde o vento dobra a esquina
E a vida se confunde com a Arte

E não há mais fronteiras entre as duas,
Que mal as temos com pagos de Castela
Onde Adão foi procurar sua costela
E meteu-se com a saga dos charruas;

Este é o meu reino louco, da Poesia,
Semeada nas silhas da coxilha
Pelos nossos ancestrais em rebeldia.

E misturo num enorme caldeirão
Meus tempos e a Idade Farroupilha
E o proibido amor de meu irmão...

18/08/2006

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Teiniaguá (de Alma Welt)

Quando à noite meus cães fazem a ronda
E contra a lua principiam a uivar
Como o lobo que vem como uma onda
Dentro deles, que não mais podem calar,

Eu saio como um solitário espectro
Vindo do fundo de forças obscuras
Ou como uma rainha com seu cetro
Na mascarada do reino das loucuras.

E dirá mais de um peão ao me avistar
Que a Teiniaguá desceu do Cerro
Enquanto estavam na coxilha a matear,

Nua, branca, alheia, em despudor
"Corriendo en la pradera como un perro"
A evocar perdidos pactos de amor…


(Sem data)

sábado, 3 de abril de 2010

Caso (de Alma Welt)

Todo esforço é inútil sem amar.
Amor move tudo e torna claro
O ter, fazer, o ser e o desejar,
E o êxito sem ele é nulo ou raro.

Dito isso passo a lhes contar
O caso de um vizinho estancieiro
Que ocultava o ouro no celeiro
De uma vida inteira de poupar.

E a mulher que com ele conviveu
Não soube o que o marido amealhou
Nem mesmo depois que ele morreu.

Então, seu empregado de coxia
Num leilão a propriedade arrematou,
Pois na palha fornicava e se escondia...

(sem data)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Meu Negrinho (de Alma Welt)

Quando guria no bosque me perdi,
Estava a colher flores e amoras,
E ouvir ao longe a voz da Mutti
Chamando pra o almoço foram horas

De angústia pelo medo do carão,
Pois esse era talvez o nosso vínculo,
O da mágoa, receio e incompreensão,
Que mais me fazia andar em círculo.

Mas então chamei o meu Negrinho
Que pastoreava sempre ao léu
E assim nem precisava estar no céu.

E juro, meu leitor que então sorriste
Deste soneto pueril ou comezinho:
Ele veio... e era belo, negro e triste.

(sem data)

domingo, 28 de março de 2010

O último fandango (de Alma Welt)

Não me verás jamais dizer assim
Que tudo vai ficar bem ou melhor,
Pois todos caminhamos pro pior
Que é a queda, a morte e o fim.

Mas vivamos e dancemos loucamente
Enquanto não bata a meia-noite
E a aldrava repouse no batente
E o fluir do rio não se afoite.

Amemos e brindemos, companheiro!
Coroemo-nos com folhas do mate
Como os antigos na festas de celeiro...

E se há um deus do Pampa a nos olhar,
Façamos de uma chula o bom combate
Ao longo de uma lança, sem relar...

31/12/2006

segunda-feira, 15 de março de 2010

Crônicas “gáltchas” (de Alma Welt)

Ali jaz um que apartou-se da boiada,
E que se foi de modo deplorável,
Pois ainda não havia feito nada
E seu plano era simples e amável:

Ser o gaucho que se espera e nada mais,
Casar-se com a prenda e ter um filho,
Ter a sua querência e plantar milho,
E não ter que dizer sim ao capataz.

Mas ao campo deu aquela campa,
Nenhum rastro mais de sua raça.
A terra? Bebe sangue e acha graça...

Que por um segundo só, de rebeldia,
Coisa pouca, mormente nesta Pampa,
Foi de peleia o seu derradeiro dia.

07/04/1990

segunda-feira, 8 de março de 2010

Maus vizinhos (de Alma Welt)

Ontem esteve aqui o estancieiro
Que há muito cobiça o meu vinhedo,
Desde que o avô meu, o vinhateiro,
O despachara apontando com o dedo.

Mas, à parte os tais ressentimentos,
Botou-me olho grande, o velho touro,
Para si mesmo, talvez, por uns momentos,
Mas logo para o filho, seu tesouro.

E disse: “Prenda loura, serás nossa,
Como o teu ruivo vinho, eu te prometo.
Prepara o teu vestido e o teu soneto

De bodas, que será o teu derradeiro,
Nem que eu tenha que queimar a tua roça,
E transformar tua Vinha num braseiro...”

12/07/1995


Nota
Acabo de descobrir estre soneto, antigo, da Alma, e me lembro bem deste episódio. Minha irmã viveu momentos de angústia e preocupação por nossa propriedade e sua própria integridade física. E com razão, pois descobri um soneto relacionado que conta um episódio acontecido depois da ameaça desse velho tirano, e que diz respeito justamente ao seu filho, num confronto com a Alma que defendia um velho umbu que ele quis cortar, e que ficava na divisa com as nossas terras :

Estória do umbu-rei (de Alma Welt)
(222)

Por amor a esta paisagem grandiosa
Mais de uma vez empunhei a carabina,
Mas foi um erro o que me fez ficar famosa
E salvar o umbu desta campina.

Foi quando um vizinho me peitou
Dizendo que estava em sua terra
O umbu onde Martinho se enforcou,
Que a árvore era sinistra e que aberra.

Então, melodramática, me amarrei
Ao tronco, disposta a ali morrer,
Com o risco de outra coisa acontecer

Pois fez com que o "gáltcho" gargalhasse
E rasgando meu vestido me mirasse
Dizendo: "Esse umbu agora é rei..."

29/12/2001

Nota
Este episódio, absolutamente verdadeiro, foi bastante mitificado aqui na região e fez a árvore mudar a sua fama. Percebi que a Alma, sob o aparente constrangimento por uma vitória vergonhosa, regosijou-se com o resultado e no fundo admirou a presença de espírito e rude galanteria implícita no gesto do estancieiro vizinho, o "gáltcho" que a desnudou deixando-a amarrada por uns minutos, depois soltando-a e partindo no seu cavalo depois de tocar o seu chapéu com dois dedos. Me recordo ter percebido um período de meditação, suspiros profundos e um ar mais sonhador que de costume em minha irmã, por um tempo depois deste episódio. (Lucia Welt)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Gauchadas (de Alma Welt)

O tenente vinha vindo, sobranceiro,
Montado no seu pingo, muito sério,
E eu que certamente o vi primeiro
Puxei logo a manga do Galdério,

Que já a mão levou a uma pistola
Antiga, de dois canos, sob a faixa,
Enquanto um pensamento, na cachola
Diz: “Bá! Esta coisa não se encaixa

Nos dias de hoje, neste século!”
E que por certo estávamos de volta
E o tempo era outro, ou só espéculo

De nossa passagem no oitocentos,
Quando os farrapos armaram a revolta
Que o Tempo levou com outros ventos...

12/07/2006

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Pelo vento (de Alma Welt)

Aonde foram os amigos tão fiéis
Que alegravam a casa em burburinho
E risos de abundantes decibéis,
E que fariam falta no caminho?

O ressonar já se sente, da Natura,
E não se ouve mais a tal zoada
Dos guris a fazer caricatura
Dos gáutchos de sela e de invernada.

Mas no silêncio que reina, secular,
Posso de novo minh’alma auscultar
E saudar os que agora espectros são.

Anita, Giuseppe, Netto e Bento,
Voltam saudosos pra rever o casarão,
Como farrapos trazidos pelo vento...

17/07/2006

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O gaúcho triste (de Alma Welt)

Um gaúcho triste aqui da estância
Contou-me que perdeu a genitora
Muito cedo, ainda em sua infância
E que isso era a razão de usar espora

E também a chibata em seu cavalo,
E que então não saberia mais montar
Se eu lhe tirasse esse direito ralo
(continuou algum tempo a rezingar).

Então eu perguntei-lhe o que queria
Para deixar de lado esses tormentos
Ao pobre do animal, filho dos ventos...

E à réplica do olhar sem mais rodeios,
A condição implícita que havia,
Rasguei o meu vestido bem nos seios.

(sem data)

Nota
Encantada, acabo de encontrar na Arca da Alma, este soneto inédito, que é uma amostra perfeita de como a minha doce irmã era, e como podia reagir de maneira imprevista e surpreendente, por impulsos de seu generoso coração, quando se tratava de suas mais nobres convicções. (Lucia Welt)

domingo, 10 de janeiro de 2010

A Nova Invernada (de Alma Welt)

Quando a noite é clara, de luar,
Eu me ergo do leito sem demora
E no jardim de antes e de agora
A lua mira esta Alma caminhar,

Muito branca, eu sei, o que assusta
Algum peão desperto aqui da estância
Que logo seu bivaque e o mate susta
E se põe a tremer como na infância.

E se estou antecipando o que farei
Por anos a porfia, eu os previno,
Que pelo amor a esta terra voltarei.

Se lograr com berreiros ou cantada
Dobrar o Capataz nosso, divino,
A coxilha me dará nova invernada...

12/01/2007

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Tempo suspenso (de Alma Welt)

Não me fales, amor, de um novo ano,
Não o vejo, vês, estou sonhando?
A coxilha corrobora o meu engano,
O próprio Tempo aqui sonha pairando,

Imóvel, suspenso, entorpecido,
A confundir os tempos e as idades,
Por isso este meu Pampa é dolorido
E pleno de guerras e saudades.

Anita veio esta manhã à revelia
Do sapateiro embriagado contumaz
E amor confidenciou-me, de guria,

Por aquele italiano belo e audaz
Que hasteou farrapos, como o Bento,
E no cais espera só soprar o vento...


09/07/2004

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O gaucho* (de Alma Welt)

O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e sem desmonte
O Martín Fierro em si nenhum demite.

Na ondulada planura destes pagos
Como a manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual

Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.

Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca luego teu punhal... e não hesite.


06/05/2004


Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)

Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria

Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.

Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...

Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...

(sem data)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

“O tempo e o vento” (de Alma Welt)

(para Érico Veríssimo, in memoriam)

Por expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...

Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.

Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.

E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A queda livre (de Alma Welt)

A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.

Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...

E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.

Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...

25/08/2004

O Sangue do Poeta (de Alma Welt)

Quando guria um tonel eu vi jorrar
O vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:

“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”

E naquela tarde houve o embate
Na sinistra colina do enforcado
Mais regada de sangue que de mate.

E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...

(sem data)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Versejando (de Alma Welt)

Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:

“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.

“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.

Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”

(sem data)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O cavaleiro (de Alma Welt)

Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro

Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.

Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia

No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Seis Sonetos gaúchos de Alma Welt

Acabo de descobrir estes seis sonetos da Alma, inéditos, manuscritos num pequeno bloco:


Névoas (de Alma Welt)
1

A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.

Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?

Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...

No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.

(sem data)
________________________________

A prenda (de Alma Welt)
2

Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!

Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes

Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.

Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...


As Naus (de Alma Welt)
3

Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.

Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos

Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.


Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...

_____________________________

Os errantes (de Alma Welt)
4

As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.

Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.

Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.

Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...



A cigarra (de Alma Welt)
5

Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.

Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!

Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...

Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!

_________________________________

A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6

Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.

Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?

Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...

E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Diapasão (de Alma Welt)

Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.

Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.

E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão

Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.

(sem data)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Post Mortem (de Alma Welt)

Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa

E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera

Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos

E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.


(sem data)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A lição do guarani (de Alma Welt)

Permanecer fiel à vida e aceitar
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.

Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente

Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,

Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...


(sem data)

domingo, 5 de julho de 2009

Posteridade pampiana (de Alma Welt)

Estarei por aqui por muito tempo
Nestes prados e sendas ancestrais,
Vagando nas noites estivais
Ou mesmo cavalgando contra o vento,

Esse frio Minuano que é meu rei
E soube das minhas ambições,
Dos sonhos que urdi e os que herdei
Dos godos meus avós e dos peões,

Em brios carregando em suas selas
A herança eterna farroupilha
Que anima o casarão e acende as velas

Que aqueceram de mim mesma a vã vigília
Repleta das lembranças de uma vida
Tão ardente e em poesia consumida.

07/01/2007

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O cavalo de fogo (de Alma Welt)

Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.

E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,

De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros

Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...

(sem data)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Dias tristes (de Alma Welt)

Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta

E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.

E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.

E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...


(sem data)


Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Fernando Pessoa.

domingo, 14 de junho de 2009

Pássaros migrantes (de Alma Welt)


Pássaros migrantes- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x60cm, coleção Ricardo Meirelles de Faria, São Paulo, Brasil

Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho

De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...

Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”

Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...

(sem data)

O embuçado (de Alma Welt)

Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?

“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som pouco lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,

Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...

E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”

(sem data)


Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...

Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Canção do guarani (de Alma Welt)

Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.

Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.

Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,

Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...

(sem data)

terça-feira, 9 de junho de 2009

O haragano e o minuano (de Alma Welt)

O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado

Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.

E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.

Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.


09/04/2004

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Memórias farroupilhas (de Alma Welt)

Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado
Com sua decantada esquisitice,

Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,

Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios

Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...

17/11/2006

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)


Crepúsculo no Pampa de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria


Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura

E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo

E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como guris a escorregar no corrimão

De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos.

(sem data)

sábado, 30 de maio de 2009

Largo al Factotum* (de Alma Welt)

Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural

Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa

Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos

Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*

(sem data)

Notas

Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.

* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"

*banda oriental- o Uruguay

*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar

*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.

* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".

* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...

* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Esta noite me sento à lua cheia (de Alma Welt)

Esta noite me sento à lua cheia
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções

Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever

Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo

Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.

(sem data)


Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)

sábado, 18 de abril de 2009

O ninho da Salamandra (de Alma Welt)

340

Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.

Mas ao Jarau iremos delirantes,
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamanca fez seu ninho.

E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.

Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.

14/10/2006

sábado, 11 de abril de 2009

O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)

Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.

Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,

Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,

E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.

03/11/2006


Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)

domingo, 15 de março de 2009

O navio na pradaria... (de Alma Welt)

Eu canto o amor em sua constância
Nascido ainda guria nesta Alma
E que se acha inscrito em minha palma
Assim como as sendas desta estância

Que demarcam o embate farroupilha
Entre os rubros lenços e o quepe
Ou aquele amor de maravilha
Entre a bela Anita e o Giuseppe.

Assim, creio, meu amor tem o aval
Da força e do sangue pelas trilhas
De um estranho e pitoresco show naval

Quando o bravo Garibaldi carreou
Seu navio por entre ondas de coxilhas
Como carrego o amor que me tomou...

(sem data)

Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto verdadeiramente épico, em que Alma compara o seu amor proibido (por Rodo, seu irmão) com a saga do navio de Garibaldi, arrastado pelos farroupilhas pela pradarias, passando por esta estância em que, um dia, muito depois, viveria a famíla Welt e uma grande poetisa que confundiria o seu amor com o passado glorioso destas terras. (Lucia Welt)

domingo, 1 de março de 2009

Orgulho Pampiano (de Alma Welt)

Por estas pastagens do meu Sul,
Caminhei, corri e cavalguei
Como quem singra em verde o mar azul,
E como uma nereida me lancei

Nas ondas celebradas das coxilhas
Semeadas além de esparsas frondes
Dos umbus solitários, como ilhas
Na névoa da manhã que busca os “ondes”:

Os lugares onde entrar e então dormir
Para a face pampiana levantar
Renascida, vital, úmida e a sorrir...

Eis como nasci, vivi e desfrutei
Do imenso dom de tanto amar
As graças que orgulhosamente herdei!

(sem data)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A Flauta de Pã (de Alma Welt)

Em meio à pradaria esta manhã
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.

Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.

Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:

“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”

12/05/2005

sábado, 17 de janeiro de 2009

Testamento "gáltcho" (de Alma Welt )


El gaucho (pintura de F. Reilly)


Por estes belos pagos do meu Sul
Que me foram dados de cenário
E raízes sob o imenso toldo azul
Que é o teto do meu templo imaginário;

Aqui onde os “gáltchos” machos são
Reis de um reino todo em seu cavalo,
Nos limites da honra e da razão
Que os leva a transpor o imenso valo

Que existe entre domínio e dominado,
Entre o ser de escolha e o malfadado
Tantas vezes alcunhado de “gaudério”;

Aqui cresci, me alcei, fui poetisa
Votada ao meu próprio mistério,
De meu próprio destino a pitonisa!

15/01/2007


Nota
Acabo de descobrir na arca dos escritos da Alma, este "testamento", que percebi ser inédito (ela já escrevera outros testamentos). Este me pareceu especialmente significativo, pois revela o grau de consciência que ela tinha de seu singular destino e grandeza. Sim, o mistério foi nota dominante em sua trajetória, pois tal dimensão de beleza numa vida vivida em permanente dimensão poética não é corriqueiro na história da literatura ou das artes. ( Lucia Welt)
*gáltcho - fonético de gaucho, como os "castelhanos" (uruguaios e argentinos, nossos vizinhos de "la Pampa" pronunciam o nosso "gaúcho". Alma normalmente se referia assim aos nossos peões.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Alma dos peões (de Alma Welt)

Eu vinha pelas sendas da campina,
Correndo como sempre de alegria
Com aquela risada cristalina
Que tem desses peões a simpatia.

Mas eis que fui parada em pleno prado
Por um deles, o Tomás, gaúcho macho
Com o seu chapéu de barbicacho
Barrando-me o passo, ali, montado.

E apeando da égua, assim, garboso
Logo instou-me a escanchar-me nela
Dizendo:“Dona Alma, ele escapou!”

Que era o touro bravo, perigoso
Que depois eu soube alguém soltou,
Talvez para me ver em sua sela...

28/10/2006

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Poema haragano (de Alma Welt)

Por ser filha do pampa e de meu pai
Eu pude amar, ser poeta e ser poesia
Que o peão já lembra e se extasia
Se pelo prado canta enquanto vai.

Sim, eu ouvi mais de um gaudério
Entoar um canto em sua sela
Em que reconheci o meu mistério
Ou dele a inspiração que me revela.

Pois quando o povo canta um verso teu,
Então está tudo certo, e podes rir:
Eis que o poeta atingiu seu apogeu.

E preciso é manter o diapasão
Para deixar mais música fluir
Como haragano quente no verão...


02/10/2006

domingo, 28 de setembro de 2008

Nobrezas (de Alma Welt)

(203)

Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.

Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."

"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."

"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."

08/11/2006

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)

Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.

Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.

Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,

Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!

(sem data)

Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Reencontrando o general (de Alma Welt)

Amarrei minha montaria no mourão
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha

Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.

Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda

E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."

(sem data)

terça-feira, 22 de julho de 2008

O umbu e o vento ( de Alma Welt)

Verdes anos verde este meu pampa
Eterno velho e novo a cada dia
Quero plantar-me aqui não numa campa
Nem como aquele umbu que renascia

Mais forte e sinistro após cortado
Diziam os que o quiseram esquecido
Pois que como forca fora usado
E logo o acreditaram fenecido.

Mas umbu frondoso e sobranceiro
Reinando na coxilha qual peão
Montado no seu pingo, ou no pampeiro

Que varre estes prados infinitos
Soprando como poderoso orgão
No sacro espaço de singelos ritos.

19/12/2006

Pietà sulina (de Alma Welt)

Vinha o gaúcho troncho em sua sela
Ferido por adaga gravemente
Na mão direita a rédea como vela
A outra mão a segurar o rubro ventre.

E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.

E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina

Pois agora já estava entre os seus
Como o outro naquela estampa fina
Fixando a morte insólita de um deus.


(sem data)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Conluios da Noite (de Alma Welt)

Elevam-se na noite os murmúrios
Das conspirações que aqui houveram
Nos tempos farroupilhas, e os conluios
Que nos ecos desta casa ainda prosperam.

E ouço: Canabarro se rebela
Contra Bento nosso grande comandante
Enquanto o bravo Netto se revela
O mais fiel amigo doravante.

Mas bah! são as prendas que os inspiram
Com seu doce pranto derradeiro
Na paixão ardente em que deliram,

Juntas, pelos quartos, e ao fogão
Cujas cinzas liberam um rico cheiro
Que, alta noite, invade o casarão...

02/10/2006

quinta-feira, 3 de julho de 2008

De tangos e fandangos (de Alma Welt)

Andei pelo bosque esta manhã
Para colher amoras e até
Mesmo umas florzitas, no afã
De enfeitar a mesa do café

Pro desjejum dos hóspedes, uns gringos
Que dormem cansados do fandango
Que fizemos em honra dos amigos
Vindos de outros pagos com seu tango.

Bah! Como foi belo ver os pares
Evoluirem naquela perfeição
De argentinos passos sem azares!

Mas Rôdo a honra nos salvou
Ao fazer cantar o seu tacão
Que na lança estendida nem relou...*

17/07/2006


Nota

* ... que na lança estendida nem relou- Alma se refere à "chula" que o nosso irmão Rodo dança de maneira admirável desde guri.(Lucia Welt)

Chula- Dança folclórica do Rio Grande do Sul, executada por homens e cuja coreografia, com muitas sapateadas, exige grande habilidade do dançarino. É acompanhada de palmas, violão, cavaquinho, pandeiros e castanholas.(1)
A chula tradicional é dançada da seguinte forma: Dois dançarinos ficavam frente a frente tendo entre si uma lança de quatro metros de comprimento. Cada um dos oponentes executava uma seqüência de difíceis passos coreográficos indo até a extremidade oposta da lança e retornando ao seu lugar de origem.(2)
1. Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil - Larousse Cultural - Nova Cultural - 1995
2. Texto extraído do site do Grupo de Danças Porteira de Guapos: www.nh.conex.com.br/user/apollo

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A fronteira (de Alma Welt)

Venham por aqui, ó Lucia, ó Rodo
E também a Solange, o bando todo...
É uma senda estreita no final
Que leva à Salamanca do Jarau!

É, sim! Eu descobri aqui na estância
O tesouro do gaúcho, é vero! juro!
Na entrada, sei, é um pouco escuro
Qu'isto não é nenhum jardim da infância.

Mas olhem, prometam, não espalhem,
A Mutti não pode saber disso,
E as preces da Matilde nada valem

Se formos proibidos de brincar
E descobrir o mundo fronteiriço
Que há além das uvas no lagar...

11/05/2006

O últimos brindes (de Alma Welt)

Por ser filha amada de meu pai
Eu pude acreditar em ser poeta,
E suspeito que o mundo um dia vai
Fruir e degustar a predileta

Nascida sob estrela de abastança,
Interior, quero dizer, e dadivosa
Meu desejo é desbordar-me generosa
Como o cálice servido na festança

Quando o "gáltcho" grato na querência
Começa a discursar aos seus compadres
E a mão já lhe treme em conseqüência

Pois os brindes brotam já em borbotões,
Junto com as juras, aos confrades,
De veraz fidelidade entre peões...

19/12/2006

domingo, 15 de junho de 2008

Meu Pampa verdadeiro (de Alma Welt)

Para além do meu jardim e do vinhedo
Começa o meu pampa verdadeiro
Bem mais que de um mar o arremedo,
As ondas em que o “gaucho” é marinheiro:

As coxilhas ondulantes, femininas,
Semeadas de intermitentes frondes
Dos umbus que coroam as colinas
Onde senta o peão mirando os “ondes”

Para logo remontar o fiel pampa
A galope desatado atrás da rês
Ou as bolas girando, aquelas três

Pra bolear as pernas de uma ema,
Ou o laço enroscar num par de guampa
Como quem lança o fecho de um poema.

04/12/2006

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Meu evangelho do Pampa (de Alma Welt)

Por esta manhã que me acordou
Eu sigo pela senda renovada
Que me confirma onde Amor brotou
Quando dei por mim, tão deslumbrada

E era a guria apaixonada
Por tudo e por todos nestes prados
Em que renasci, pois transplantada
Viera de uma terra de emigrados,

Lá do Novo Hamburgo, Hamburgo Velho
Que a mim me dera só germanidade
Faltando do meu Pampa o evangelho

Que consiste na amplidão da herdade
E o meu senso de vôo (bah! não riam!)
Em que corpo e alma se uniriam...

16/11/2006

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Pampianas brincadeiras (de Alma Welt)

Deliciosas manhãs deste meu prado
Em que ponho-me a correr e perseguir
Alguns desgarres do meu gado
Apenas pra cansar e divertir!

E me vejo ainda guria com meu Rôdo,
Quando este a girar boleadeiras
Tentava derrubar, ah! ledo engôdo
Uma rês ou uma ema, em brincadeiras,

E logo aquele dia, em que afinal
Lançou o artefato em minhas pernas
Quando eu fugia também, como animal

Que ao cair, de quatro, muito brusco
Penetrou-me, mas com palavras ternas:
"Eis a novilha que na verdade busco!"

_____________________________

Nota da editora

Sobre este episódio explicitamente erótico, um tanto picaresco, há uma variante, um outro soneto pampiano entitulado "A vitela" , o que sugere que se trata de fato ocorrido mesmo com a Alma em sua adolescência com Rôdo, e que a emocionou ou divertiu. Vou transcrevê-lo aqui:

A vitela (de Alma Welt)
(119)

Entre minhas lembranças da infância
Está aquele dia inusitado
Em que no prado e à distância,
Fui laçada e derrubada feito gado

Pelo meu irmão que quis mostrar
Que havia aprendido a laçar:
Enroscada pelos pés me vi caída,
Nem assim querendo dar-me por vencida.

Mas com o laço amarrou-me bem veloz
As mãos como se fora uma vitela,
Levantando meu vestido até a costela,

E estando eu de quatro como rês
Rasgou-me a calcinha pelo cós...
Haja soneto pra contar o que ele fez!

03/09/2006

terça-feira, 4 de março de 2008

Vinhedo amargo (de Alma Welt)

25

Havia aqui em nossa estância
Uma jovem peona colhedeira
Que amava um guri desde criança
Mas os pais a mantinham na coleira.

A verdade é que mesmo vigiados
Eles conseguiam se encontrar
Na hora da colheita ou dos cuidados
No meio do vinhedo, para amar.

Mas morto com um tiro no seu peito
Eis que o rapaz é encontrado
E o pai da moça era o suspeito,

Até que a guria tão sofrida
Revelou que outro era o culpado:
O irmão que a amara toda a vida.

O pastor sem remorsos (de Alma Welt)

24

Um jovem pastor aqui da estância
Resolveu se aproximar do casarão:
Não vira piscina em sua infância
E queria ver a filha do patrão

Nadando, como sempre, assim pelada,
E escondido, então, atrás da sede,
Ali fica por quase uma jornada,
Enquanto uma ovelha se escafede.

E quando afinal interpelado
Por quê e se não ia arrepender,
Já que uma ovelha até morreu

Ele com o olhar emocionado
Disse afinal, sustentando o meu:
"Eu mesmo já podia até morrer..."

04/01/2007

De facas e corações (de Alma Welt)

23

Meu pai tinha um peão na estância
Que parecia um anjo de bombachas:
Seu olhar ficara em sua infância,
Mas na cintura ostentava faixas

Que abrigavam a dura faca de peão,
E que ah! não deveria estar ali,
Pois foi ela que no tribunal do Juri
Condenou-o a dez anos de prisão.

E eu que vira o caso se enrolar,
Embora fosse uma guria idealista
Cheguei a conclusão nada simplista:

Que entre gesto, faca e os corações
Havia todo um mundo de razões
Qu'eu levaria a vida a desvendar.

02/01/2007

Perigos do não mirar (de Alma Welt)

22

Dedicarei ao Galdério uma loa
Por peitar um peão desembainhado,
Que ao que parece o queria degolado
Por ser fiel amigo da patroa.

Então, assim que estava desarmado
Interpelei o peão severamente:
"Por quê estás assim tão exaltado,
Não vês que o Galdério é boa gente

E repete as ordens que lhe passo?
Como a todos, pra que ninguém se fira
Acaso não te dou o mesmo espaço?

E o gaúcho envergonhado revelou:
"Não suporto saber que tu le mira
Nos olhos e os meus tu nunca olhou!"


(sem data)

As ausências do Galdério (de Alma Welt)

21

Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.

Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"

"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"

Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."


09/11/2006

De sombras e aromas (de Alma Welt)

20

As sombras do passado desta estância
Continuam a crescer e a ameaçar.
As noites geram medos e a ânsia
De uma antiga dívida saldar:

A do boche, o nosso avô Joachim
Que ao comprar a terra em desgraça
Deixou pros meus irmãos e para mim
Um patrimônio com peso de uma raça.

Aqui acamparam os farroupilhas,
Nesta mesa além do clã do Valentim
Sentou Bento Gonçalves com as filhas.

Sete mulheres deitaram-se nos quartos
E ainda sinto o cheiro do alecrim
E os gemidos, dos amores e dos partos...

05/12/2006

segunda-feira, 3 de março de 2008

Sendas farroupilhas (de Alma Welt)

19

Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.

E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada

Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.

Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...


14/01/2007