O Pampa não tem franjas nem limite
E se estende bem além do horizonte
Onde vive o gaucho e sem desmonte
O Martín Fierro em si nenhum demite.
Na ondulada planura destes pagos
Como a manta de um charque visceral
Os peões são profetas e são magos
De uma oculta confraria de bagual
Cuja honra ou altivez é a grandeza
Do ser, embora às vezes confundida
Com a simples bazófia da macheza.
Mas se acaso recusares um convite
Para mais uma rodada de bebida,
Saca luego teu punhal... e não hesite.
06/05/2004
Nota
*gaucho- pronuncia-se "gáltcho", que é o gaúcho castelhano, e que é como comumente se diz no Rio Grande na zona de fronteira.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Reminiscências farroupilhas (de Alma Welt)
Tantas vezes, vagando pelo prado
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
Eu sinto aquela estranha nostalgia
Desta mesma pradaria em outro fado,
Que esqueci, e que outrora percorria
Num tempo remoto, entre guerreiros
De bombachas e espadas, e lanceiros.
Então penso que na saga farroupilha
Estive mais pra vivandeira do que filha.
Ah! Como eu amava o italiano,
E como admirava a brava Anita!
Por eles fui lá atrás por mais de ano...
Todavia em flashes de memória
Me avisto junto a ele e a favorita,
A contar ao par mais de uma estória...
(sem data)
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
“O tempo e o vento” (de Alma Welt)
(para Érico Veríssimo, in memoriam)
Por expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...
Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.
Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.
E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória
Por expressar o pampa, a minha terra,
Raízes fundas lancei de umbu-pampeiro,
Aquele grande da colina, sobranceiro,
(que nada mais me ceifa ou me desterra)...
Eu e a terra temos laços, somos um
E a planura se reflete em minha mirada
A buscar no horizonte como um zoom
A razão de ser poeta e... desvairada.
Mas tudo que me cerca está lançado
Num livro de registros imanente
De sonetos como flores do meu prado.
E se chegar um tempo sem memória,
Estarei plana e vasta em minha mente,
E o minuano há de contar a minha estória
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A queda livre (de Alma Welt)
A montanha subi nada hesitante,
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
Eu, que venho da terra da planura
E ali tenho a vertigem do rasante
E corro numa espécie de loucura.
Nos prados quero alçar-me e voar
Com o pampeiro e seus abismos
De horizonte e seus ocultos sismos
Que são despenhadeiros do olhar...
E me vi subindo alto, muito alto,
Rumo ao pensamento sempre virgem,
À era em que começou meu salto.
Pois sinto-me viver em despedida,
Espírito que almeja sua origem
Na grande queda livre que é a vida...
25/08/2004
O Sangue do Poeta (de Alma Welt)
Quando guria um tonel eu vi jorrar
O vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra colina do enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
O vinho pela relva em catadupas
Quando um peão com outras culpas,
Com o machado rachou-o a gritar:
“Eis de volta o sangue desta terra!
E logo, igualmente, o meu, verão.
Mas antes verterei de um que aberra
E não merece o amargo que lhe dão!”
E naquela tarde houve o embate
Na sinistra colina do enforcado
Mais regada de sangue que de mate.
E eu, que tudo em volta absorvia,
Jurei jorrar por conta do meu fado,
Meu sangue pela vida e a Poesia...
(sem data)
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Versejando (de Alma Welt)
Esta ânsia dos versos na guria
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:
“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.
“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.
Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”
(sem data)
Não foi ignorada desde a infância
Pelo povo tolerante desta estância,
Que vê jorrar tal fonte de poesia:
“-Essa prenda põe a fala no tinteiro,
Uma palavra jogada assim a esmo
Vira verso como muda o pampeiro
Em haragano ou minuano mesmo”.
“Por isso tome tento, gauchada!
Na digam tonterías, charla à toa ,
Que o que ela pega... é que revoa.
Mas quando ela recita pr’um gaudério
O amargo se refina, o mate côa,
E tudo fica claro ou... um mistério!”
(sem data)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O cavaleiro (de Alma Welt)
Pelas noites vinha o cavaleiro
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
Armado de fuzil e cartucheira,
No peito, cruzada, a bandoleira
E na cintura uma faixa de toureiro
Com o punhal de prata e bombachas,
O chapéu era pequeno e dobrado,
Tinha fileiras de bordadas tachas
Na frente, e aos ventos do meu prado.
Mas ele cavalgava sem um senso
E mirando-me assim ele apontava
Mas passando por mim arremetia
No louco rumo do nevoeiro denso
Onde por encanto ele sumia
Enquanto o véu do tempo se fechava...
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Seis Sonetos gaúchos de Alma Welt
Acabo de descobrir estes seis sonetos da Alma, inéditos, manuscritos num pequeno bloco:
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
Névoas (de Alma Welt)
1
A neblina que paira sobre a estância
A revela em sua falsa letargia.
Dois séculos de espera e de constância,
Lhe fizeram firme e cega companhia.
Quem chega ao casarão e suas soleiras?
Que esporas já retinem na varanda?
Que olhos doces de casadas e solteiras
Lacrimejam e se abaixam como manda?
Na névoa revivem os áureos tempos,
Os risos e esperanças se renovam,
Ainda não se contam contratempos...
No salão Anita entra, e Garibaldi,
E talvez esta família já comovam,
Que aqui não haverá quem deles malde.
(sem data)
________________________________
A prenda (de Alma Welt)
2
Sou guria orgulhosa deste Pampa
Que ousa cantá-lo em verso e prosa.
Que digam que a caixa só destampa
Quando os grandes fazem sua glosa!
Evocando a valente farroupilha,
Os maiores já contaram seus revezes,
Mas não com a candura de uma filha
Como eu que a espero tantas vezes
Na soleira desta casa tão vetusta
E ilustre em sua anciã modorra
Que nada faz crer que um dia morra.
Ostentando pelo menos um punhal
Reencontro Anita e não me custa
Galopear junto dela o meu bagual...
As Naus (de Alma Welt)
3
Leiam estes meus versos, ó futuros,
Não despendia assim tanta energia
Em rimas, em palavras de poesia,
Não quisera eu transpor tais muros.
Não estaria brincando no serviço
Ao inventar assim tantos motetos...
Há muito notariam meu sumiço
Aqueles que invejam meus sonetos
Se não fosse aquele ilustre clero
De farrapos e de homens como Netto,
Escoltando-me ao meu verso completo.
Mas como Anita se lhe falta o italiano,
Vejam, nos meus versos eu lidero,
E arrasto naus em meio ao Minuano...
_____________________________
Os errantes (de Alma Welt)
4
As ocultas trilhas do meu pampa
Conduzem ainda ao meu portão,
E espectros saídos de sua campa
Assombram mesmo agora o casarão.
Não busco exorcizar ou demovê-los:
As velas são porque os quero bem
E procuro com meus versos comovê-los
Embora não me sinta sua refém.
Mas compartilho sim, a solidão,
De almas que malgrado sua paixão
Ainda erram e deixam suas prendas.
Eu mesma, a esperar Rodo, meu irmão
(que este vaga vivo em outras sendas),
Sou a novilha de um pródigo marrão...
A cigarra (de Alma Welt)
5
Quando chega o tempo das cigarras,
Eu que trabalhei como a formiga
Num romance, soltando as suas amarras,
Nem por isso dou ouvido à sua intriga.
Sou da raça daquela cantadora
E trabalhar pra mim é eufemismo.
Cantar, cantar, mesmo que amadora
Na glória do meu diletantismo!
Isso o é que faz feliz a pampiana
Sem os remorsos que me cobra
A lembrança da dura Açoriana...
Malgrado este prazer que quase aberra
Cantar, cantar a alma desta terra
E seu cenário ilustre... é minha obra!
_________________________________
A Noviça do Pampa (de Alma Welt)
6
Olho o meu cenário de tal modo,
Que feliz por existir, como noviça
Eu abrindo os braços rodo e rodo
E agradeço isto ser pampa e não Suiça.
Meus avós aqui chegaram por acaso?
Não creio como creio no destino,
Embora misterioso, no meu caso...
Por quê o cabelo ruivo e o pêlo fino?
Esta herança germânica que teima
Em me deixar nostálgica do gelo
Que por aqui a geada, apenas, queima...
E esta pele tão alva como um halo
Que os gaúchos me querem ver o grelo
Apostando que é rubro ou muito ralo...
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O Diapasão (de Alma Welt)
Eis-me aqui, poeta deste prado,
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
Senão do povo, por certo desta estância
Em que o peão, ao menos à distância
Se mistura, contente, com seu gado.
Sim, porque o gado é dele mesmo
Enquanto tangido na coxilha
E não importa a posse da novilha
No meio da boiada, assim a esmo.
E eu também sou parte, mera, então,
Canora deste mundo que me molda
Como uma andorinha no verão
Emitindo a nota mestra da canção,
Como voz que de perto não se amolda
Mas é grito de alegria e... diapasão.
(sem data)
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Post Mortem (de Alma Welt)
Peregrina a vagar nas pradarias
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
Eu me tornei a Alma do meu Pampa
E os gaúchos em suas montarias,
Reverentes vêm até a minha campa
E apeando depositam um raminho
De flores do meu campo em primavera,
Ou dos seus amargos um saquinho
Antes de seguirem pra Rivera
Onde o prado encontra os castelhanos
Que outrora ferozes combatemos
E que agora na verdade tanto amamos
E temos como símbolos do humilde
(pelo menos os fiéis que recolhemos),
Corações como o Galdério e a Matilde.
(sem data)
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A lição do guarani (de Alma Welt)
Permanecer fiel à vida e aceitar
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
O destino segundo se afigura
É tarefa principal da criatura
Nascida pra servir e para amar.
Eis a lição profunda que aprendi
Não de antigos mestres do oriente
Mas de um simples velho guarani
Que por aqui parou humildemente
Contratado de meu pai como peão
E que na charla durante o anoitecer
Limitava-se a sorver o chimarrão,
Em silêncio no meio das risadas.
Um só desejo seu, foi ao morrer:
Posto a mirar estrelas tão amadas...
(sem data)
domingo, 5 de julho de 2009
Posteridade pampiana (de Alma Welt)
Estarei por aqui por muito tempo
Nestes prados e sendas ancestrais,
Vagando nas noites estivais
Ou mesmo cavalgando contra o vento,
Esse frio Minuano que é meu rei
E soube das minhas ambições,
Dos sonhos que urdi e os que herdei
Dos godos meus avós e dos peões,
Em brios carregando em suas selas
A herança eterna farroupilha
Que anima o casarão e acende as velas
Que aqueceram de mim mesma a vã vigília
Repleta das lembranças de uma vida
Tão ardente e em poesia consumida.
07/01/2007
Nestes prados e sendas ancestrais,
Vagando nas noites estivais
Ou mesmo cavalgando contra o vento,
Esse frio Minuano que é meu rei
E soube das minhas ambições,
Dos sonhos que urdi e os que herdei
Dos godos meus avós e dos peões,
Em brios carregando em suas selas
A herança eterna farroupilha
Que anima o casarão e acende as velas
Que aqueceram de mim mesma a vã vigília
Repleta das lembranças de uma vida
Tão ardente e em poesia consumida.
07/01/2007
quinta-feira, 18 de junho de 2009
O cavalo de fogo (de Alma Welt)
Por aqui o cavalo vai sem meta
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
Todo em chamas a vagar na pradaria
E me lembro do outro, o do poeta
Lima que seu livro incrível lia.
E hesitamos, eu, Rodo e Galdério
Em segui-lo à distância pela noite
Pois seu rastro deixado como açoite
É como aquela luz de cemitério,
De santelmo, como dizem marinheiros
E o gaucho que se esvai em pleno pampa
O avista nos momentos derradeiros
Quando segurando o ventre rubro,
E da coxilha a galgar última rampa
Segue o íncubo cavalo que descubro...
(sem data)
terça-feira, 16 de junho de 2009
Dias tristes (de Alma Welt)
Dias tristes do meu pampa, "dias tristes
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Fernando Pessoa.
Como sentir-se viver” disse o poeta,*
Quando abandonávamos os chistes
E tentávamos deixar a vida quieta
E quase hibernados concentrando
Os nossos sentimentos e amores
Na espera paciente de esplendores
Que nos aguardariam triunfando.
E em silêncio vagava com meu Rodo
Embrulhados nos palas, mateando,
Evitando sendas calvas e seu lodo.
E então se nos pegava o minuano
Eu, aninhada em meu irmão, e tiritando,
Poderia assim viver por todo um ano...
(sem data)
Nota
* ... "dias tristes como sentir-se viver"- citação de um verso de um poema de Fernando Pessoa.
domingo, 14 de junho de 2009
Pássaros migrantes (de Alma Welt)

Pássaros migrantes- óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 50x60cm, coleção Ricardo Meirelles de Faria, São Paulo, Brasil
Pássaros migrantes do meu sonho!
Eu os avisto a voar em formação
A caminho do Norte e sua canção
Que conheço só do que disponho
De livros e poemas nas estantes
Desde que era a guria tão curiosa
Projetando vagar mundos distantes
Talvez como escritora já famosa...
Me alce, ó bando, e leve com você
Nesse vôo lindo em esquadrilha
Com formato sugestivo de um “V”
Do qual não almejo a liderança,
E humilde seguirei à maravilha
O sonho de que a Alma não se cansa...
(sem data)
O embuçado (de Alma Welt)
Galdério, ó Galdo, o que é aquilo
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som meio lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
Que vimos embuçado pela estrada
Quando íamos a passo bem tranqüilo
E então me vi sobressaltada?
“Alma, patroinha, não é nada,
Aquele não é senão Judas Leproso,
E a sineta de som meio lamentoso
Ele agita pra afastar a peonada,
Que de longe lhe deixa o de comer
Pois dinheiro não lhe querem pôr na mão,
Que outros não iriam receber...
E a pobre alma penada é intocável,
E morrerá sem que jamais nenhum peão
Le mire a face morta e deplorável.”
(sem data)
Notas
Acabo de descobrir este notável soneto na arca e embora percebendo-lhe o nítido teor simbolista, impressionada fui perguntar ao Galdério se esse episódio realmente acontecera, se ele se lembrava disso... Galdério confirmou dizendo: "Patroa, si Alma lo ha escrito, es verdad."
Jamais saberei definir os limites entre realidade e invenção no mundo da Alma...
Le mire- escrito assim mesmo, como falam os peões por aqui.
(Lucia Welt)
sexta-feira, 12 de junho de 2009
A Canção do guarani (de Alma Welt)
Entre os nossos peões havia aqui
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
O Solano olhado assim de esguelha
Pelos outros por ser um guarani
E bem mais calado que uma telha.
Também não se encaixava no telhado
E não por trabalhar errado ou menos,
Mas por suposto olhar de mau-olhado
Ou sua importância de somenos.
Então experimentei me aproximar
Para talvez lhe dar outro destaque,
Uma amizade buscando semear,
Semente que Solano em solidão
Levou, fugindo só com o almanaque
Em que eu lhe dedicara uma canção...
(sem data)
terça-feira, 9 de junho de 2009
O haragano e o minuano (de Alma Welt)
O haragano é uma força deste prado,
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
Irrupção vital e alegre vento
Como fora verão, sem o tormento
Do nosso minuano, o outro lado
Do pampa quando mostra seu semblante,
Gélida, implacável e feia cara...
É então que ess’ outra face nos prepara
Para o longo inverno, duro amante.
E então acolhemos o monarca
E não o usurpador, embora feio,
Com nossos grossos palas e o mateio.
Mas, bah! quando ao açoite a nave geme,
No salão deste sobrado e minha arca
Lanço versos qual se ainda houvesse leme.
09/04/2004
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Memórias farroupilhas (de Alma Welt)
Pelas trilhas em volta do sobrado
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
Que se eleva sobranceiro na planície,
A fachada como a face de um barbado
Com sua decantada esquisitice,
Recoberta pela hera e não grisalha
Conquanto mais vetusta que a do Vati,
E que sobe a parede até a calha
Com sua textura cor de mate,
Eu perambulo nos dias e nas noites
Procurando senhas e vestígios
Dos antigos farrapos e prodígios
Que me são anunciados por murmúrios,
Gemidos de cilícios, seus açoites,
Os vôos da memória e seus augúrios...
17/11/2006
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Os Tempos e os Ventos (de Alma Welt)
Crepúsculo no Pampa de Alma Welt- óleo s/ tela de Guilherme de Faria
Inolvidáveis tardes do meu prado
Quando em silhueta e uma aura
O adeus deste poente agraciado
O rubro dos cabelos me restaura
E junto ao grande umbu frondoso
No alto da colina em pleno pampa
Me vejo tal qual aquela estampa
Do vento que levou o nosso gozo
E então retorno e subo ao casarão
Que anoitecido desperta suas memórias
Como guris a escorregar no corrimão
De seus jovens sonhos revividos
De outros poentes e outras glórias
De tempos e ventos esquecidos.
(sem data)
sábado, 30 de maio de 2009
Largo al Factotum* (de Alma Welt)
Galdério, factotum desta estância,
Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural
Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa
Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos
Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.
* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"
*banda oriental- o Uruguay
*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar
*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.
* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".
* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...
* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)
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Filho dileto da banda oriental*
Do Pampa e de sua circunstância*
Com sua fala um tanto gutural
Tem como uma espécie de mistério
O nome que, entre nós, ele detesta
Por ser ele confundido com gaudério*
Embora não ostente em sua testa
Pois é gaucho do trabalho como poucos
E apesar do desrespeito inicial
Impôs-se com rigor e brados roucos
Pois, irmão mais esperto da Matilde,
Tornou-se o paladino de um graal*:
Alma viva, nem Rosina, nem Brunhilde...*
(sem data)
Notas
Acabo de encontrar este curioso soneto inédito na Arca da Alma, que faz uma homenagem ao nosso administrador, charreteiro, motorista, emfim, o "faz-tudo" aqui da nossa estância desde que éramos piás, e sua irmã, a nossa querida Matilde, nossa babá.
* Largo al Factotum- título da famosíssima ária da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini. A expressão significa : "Abram alas ao Faz-tudo"
*banda oriental- o Uruguay
*Pampa e sua circunstância- Trocadilho com a famosa Pompa e Circunstância , obra orquestral solene de Edward Elgar
*gaudério- expressão gauchesca que designa um tipo sem eira nem beira, fanfarrão, vagabundo e jogador de truco. Às vezes os gaúchos assim se referem jocosamente uns aos outros. Nosso administrador e fiel amigo Galdério não gosta de ter seu nome (com l) assim confundido por galhofa.
* gaucho- assim, sem acento é como o próprio Galdério, que é uruguaio, se auto-designa e aos otros peões. Pronuncia-se "gáltcho".
* paladino de um graal- A fidelidade e dedicação do Galdério à nossa Alma o tornaram um verdadeiro "chevalier-servant", ou cavaleiro andante da sua amada "patroinha" que é para ele um graal, isto é, sagrada...
* Alma viva, nem Rosina nem, Brunhilde... - curioso verso que alude ao personagem do conde Almaviva, que é apaixonado por Rosina no O Barbeiro de Sevilha e adota o nome de Lindauro para se apresentar ao tutor dela, Bartolo, que a mantém prisioneira e quer casar-se ele próprio com a sua tutelada, por dinheiro. Com a ajuda de Fígaro, o barbeiro "faz-tudo" que aí se torna alcoviteiro, o conde Almaviva conseguirá no final casar-se com sua amada. Quanto à Brunhilde, essa é personagem do Anel dos Nibelungos, a grande saga germânica da ópera de Richard Wagner. Alma quis dizer que ela não está nem para a heroína burlesca de Rossini, nem para a solene walkíria Brunhilde de um Wagner da ascendência germânica dos Welt, mas mais para uma "Alma viva", ela mesma, poetisa-heroína do nosso pampa. (Lucia Welt)
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quinta-feira, 21 de maio de 2009
Esta noite me sento à lua cheia (de Alma Welt)
Esta noite me sento à lua cheia
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções
Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever
Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo
Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)
Orgulhosa a matear entre os peões
Ouvindo as estórias de peleia
E os chistes, as risadas e as canções
Que correm em nossas veias aquecidas
Pelo mate e o prazer de pertencer
A estas pradarias esquecidas
Pela História que ficou a nos dever
Desde que firmou-se espúrio acordo
Com os imperiais que derrotamos
Segundo conta agora o mano Rodo
Entre gargalhadas e altos brados
Que saúdam os bravos pampianos
Que fomos e ainda somos nestes prados.
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar este soneto que pertence à veia "gauchesca" da Alma. A Poetisa realmente adorava essas vigílias de bivaque, com a chaleira a chiar sobre a fogueira, entre os peões mateando o chimarrão, acompanhada ou não de Rodo. (Lucia Welt)
sábado, 18 de abril de 2009
O ninho da Salamandra (de Alma Welt)
340
Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.
Mas ao Jarau iremos delirantes,
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamanca fez seu ninho.
E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.
Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.
14/10/2006
Iremos lá, àquele Cerro, meu irmão,
Como fomos juntos às Missões,
Sete Povos, lembra? num verão,
Quando a lenda nos tocou os corações.
Mas ao Jarau iremos delirantes,
E assim encontraremos o caminho
E chegaremos à sala dos diamantes
Onde a Salamanca fez seu ninho.
E seguiremos, eu sei, e não malditos
Pois não somos movidos por ganância,
Mas pela graça de nossa leda infância.
Quanto ao ouro e o poder, estes gigantes
Não nos poderão deixar aflitos,
Que o tesouro vive em nós e vem de antes.
14/10/2006
sábado, 11 de abril de 2009
O Labirinto do Minuano (de Alma Welt)
Encontrei a passagem numa estante
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
Da fiel biblioteca e nosso gozo
Aqui no casarão, que num instante
Afigurou-se um labirinto perigoso.
Esta noite irei me aventurar
Pelo dúbio corredor mas instigante,
Não deixando todavia de me atar
À ponta de um novelo de barbante,
Mas temo que a passagem, por secreta,
Levará a imponderável metaplano
Que por certo nunca foi a minha meta,
E no centro do sulino labirinto
Estará o minotauro: o Minuano
Que, sim, me levará, eu bem o sinto.
03/11/2006
Nota
*Minuano- Nome do vento típico e famoso das planícies do Pampa. Este vento frio e veloz se insinua sibilante pelas frestas das portas e janelas fazendo cair de súbito a temperatura, enregelando e assustando as pessoas. Alma tinha grande temor e reverência por este vento, que quando soprava a deixava fora de si, histérica. Ela chamava o minuano de "rei Mino "e aterrorizada gritava que ele vinha buscá-la. Apavorada, assisti algumas vezes minha irmã perder o controle e debater-se no chão em convulsões quando soprava este vento terrível. Garanto que minha irmã não era epilética, mas sim hipersensível. (Lucia Welt)
domingo, 15 de março de 2009
O navio na pradaria... (de Alma Welt)
Eu canto o amor em sua constância
Nascido ainda guria nesta Alma
E que se acha inscrito em minha palma
Assim como as sendas desta estância
Que demarcam o embate farroupilha
Entre os rubros lenços e o quepe
Ou aquele amor de maravilha
Entre a bela Anita e o Giuseppe.
Assim, creio, meu amor tem o aval
Da força e do sangue pelas trilhas
De um estranho e pitoresco show naval
Quando o bravo Garibaldi carreou
Seu navio por entre ondas de coxilhas
Como carrego o amor que me tomou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto verdadeiramente épico, em que Alma compara o seu amor proibido (por Rodo, seu irmão) com a saga do navio de Garibaldi, arrastado pelos farroupilhas pela pradarias, passando por esta estância em que, um dia, muito depois, viveria a famíla Welt e uma grande poetisa que confundiria o seu amor com o passado glorioso destas terras. (Lucia Welt)
Nascido ainda guria nesta Alma
E que se acha inscrito em minha palma
Assim como as sendas desta estância
Que demarcam o embate farroupilha
Entre os rubros lenços e o quepe
Ou aquele amor de maravilha
Entre a bela Anita e o Giuseppe.
Assim, creio, meu amor tem o aval
Da força e do sangue pelas trilhas
De um estranho e pitoresco show naval
Quando o bravo Garibaldi carreou
Seu navio por entre ondas de coxilhas
Como carrego o amor que me tomou...
(sem data)
Nota
Acabo de encontrar na arca este soneto verdadeiramente épico, em que Alma compara o seu amor proibido (por Rodo, seu irmão) com a saga do navio de Garibaldi, arrastado pelos farroupilhas pela pradarias, passando por esta estância em que, um dia, muito depois, viveria a famíla Welt e uma grande poetisa que confundiria o seu amor com o passado glorioso destas terras. (Lucia Welt)
domingo, 1 de março de 2009
Orgulho Pampiano (de Alma Welt)
Por estas pastagens do meu Sul,
Caminhei, corri e cavalguei
Como quem singra em verde o mar azul,
E como uma nereida me lancei
Nas ondas celebradas das coxilhas
Semeadas além de esparsas frondes
Dos umbus solitários, como ilhas
Na névoa da manhã que busca os “ondes”:
Os lugares onde entrar e então dormir
Para a face pampiana levantar
Renascida, vital, úmida e a sorrir...
Eis como nasci, vivi e desfrutei
Do imenso dom de tanto amar
As graças que orgulhosamente herdei!
(sem data)
Caminhei, corri e cavalguei
Como quem singra em verde o mar azul,
E como uma nereida me lancei
Nas ondas celebradas das coxilhas
Semeadas além de esparsas frondes
Dos umbus solitários, como ilhas
Na névoa da manhã que busca os “ondes”:
Os lugares onde entrar e então dormir
Para a face pampiana levantar
Renascida, vital, úmida e a sorrir...
Eis como nasci, vivi e desfrutei
Do imenso dom de tanto amar
As graças que orgulhosamente herdei!
(sem data)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
A Flauta de Pã (de Alma Welt)
Em meio à pradaria esta manhã
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.
Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.
Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:
“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”
12/05/2005
Topei um peão chamado Acácio
Que como um pastor do antigo Lácio
Tocava estranha flauta: era de Pã.
Atraída, perguntei-lhe se sabia
Que essa flauta antiga assim chamava
E que com ela Dionisos comandava
Os cantos, as danças e... a orgia.
Então o pastor, desconfiado,
Olhou-me suspendendo o seu trinado
E respondeu com a charla de gaudério:
“Patroa, esta gaita é de família,
Nunca tocou só pr’uma guria,
E meu avô a ganhou num monastério.”
12/05/2005
sábado, 17 de janeiro de 2009
Testamento "gáltcho" (de Alma Welt )

El gaucho (pintura de F. Reilly)
Por estes belos pagos do meu Sul
Que me foram dados de cenário
E raízes sob o imenso toldo azul
Que é o teto do meu templo imaginário;
Aqui onde os “gáltchos” machos são
Reis de um reino todo em seu cavalo,
Nos limites da honra e da razão
Que os leva a transpor o imenso valo
Que existe entre domínio e dominado,
Entre o ser de escolha e o malfadado
Tantas vezes alcunhado de “gaudério”;
Aqui cresci, me alcei, fui poetisa
Votada ao meu próprio mistério,
De meu próprio destino a pitonisa!
15/01/2007
Nota
Acabo de descobrir na arca dos escritos da Alma, este "testamento", que percebi ser inédito (ela já escrevera outros testamentos). Este me pareceu especialmente significativo, pois revela o grau de consciência que ela tinha de seu singular destino e grandeza. Sim, o mistério foi nota dominante em sua trajetória, pois tal dimensão de beleza numa vida vivida em permanente dimensão poética não é corriqueiro na história da literatura ou das artes. ( Lucia Welt)
*gáltcho - fonético de gaucho, como os "castelhanos" (uruguaios e argentinos, nossos vizinhos de "la Pampa" pronunciam o nosso "gaúcho". Alma normalmente se referia assim aos nossos peões.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Alma dos peões (de Alma Welt)
Eu vinha pelas sendas da campina,
Correndo como sempre de alegria
Com aquela risada cristalina
Que tem desses peões a simpatia.
Mas eis que fui parada em pleno prado
Por um deles, o Tomás, gaúcho macho
Com o seu chapéu de barbicacho
Barrando-me o passo, ali, montado.
E apeando da égua, assim, garboso
Logo instou-me a escanchar-me nela
Dizendo:“Dona Alma, ele escapou!”
Que era o touro bravo, perigoso
Que depois eu soube alguém soltou,
Talvez para me ver em sua sela...
28/10/2006
Correndo como sempre de alegria
Com aquela risada cristalina
Que tem desses peões a simpatia.
Mas eis que fui parada em pleno prado
Por um deles, o Tomás, gaúcho macho
Com o seu chapéu de barbicacho
Barrando-me o passo, ali, montado.
E apeando da égua, assim, garboso
Logo instou-me a escanchar-me nela
Dizendo:“Dona Alma, ele escapou!”
Que era o touro bravo, perigoso
Que depois eu soube alguém soltou,
Talvez para me ver em sua sela...
28/10/2006
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Poema haragano (de Alma Welt)
Por ser filha do pampa e de meu pai
Eu pude amar, ser poeta e ser poesia
Que o peão já lembra e se extasia
Se pelo prado canta enquanto vai.
Sim, eu ouvi mais de um gaudério
Entoar um canto em sua sela
Em que reconheci o meu mistério
Ou dele a inspiração que me revela.
Pois quando o povo canta um verso teu,
Então está tudo certo, e podes rir:
Eis que o poeta atingiu seu apogeu.
E preciso é manter o diapasão
Para deixar mais música fluir
Como haragano quente no verão...
02/10/2006
Eu pude amar, ser poeta e ser poesia
Que o peão já lembra e se extasia
Se pelo prado canta enquanto vai.
Sim, eu ouvi mais de um gaudério
Entoar um canto em sua sela
Em que reconheci o meu mistério
Ou dele a inspiração que me revela.
Pois quando o povo canta um verso teu,
Então está tudo certo, e podes rir:
Eis que o poeta atingiu seu apogeu.
E preciso é manter o diapasão
Para deixar mais música fluir
Como haragano quente no verão...
02/10/2006
domingo, 28 de setembro de 2008
Nobrezas (de Alma Welt)
(203)
Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.
Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."
"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."
"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."
08/11/2006
Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.
Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."
"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."
"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."
08/11/2006
sexta-feira, 25 de julho de 2008
O claro e o escuro da Alma (de Alma Welt)
Amanhã verei meu ser refeito
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.
Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.
Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,
Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!
(sem data)
Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)
E envolto em aura, libertado,
Serei o ser que sou, o ser eleito
De mim mesma, aceso, iluminado.
Farol na noite eterna de esperança
Ou sol no dia claro sempiterno,
O timbre escolhi eu desde criança
Ao escolher o amor, o bom e o terno.
Mas, bah! se o Cerro esfria e escurece
E pelas faldas onduladas de coxilhas
Do Jarau o minuano escorre e desce,
Da alma o lado escuro me fascina
Ao perceber o quanto, sim, ele me anima,
Esse contraste que produz as maravilhas!
(sem data)
Nota
Com o seu poder de criar ou de realimentar mitos, Alma parece dizer que o minuano nasce no Cerro do Jarau (vide A Salamanca do Jarau, de João Simões Lopes Neto) e quando este escurece e esfria, escorre pelas encostas e corre pela pradaria, como um desbordamento do lado escuro do mundo. (Lucia Welt)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Reencontrando o general (de Alma Welt)
Amarrei minha montaria no mourão
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha
Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.
Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda
E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."
(sem data)
Adentrando então a estância estranha.
No peito eu sentia o coração
Pulsando como os palpos de uma aranha
Que aguardasse a si mesma como presa
No centro de uma teia que era o mundo.
E assim eu caminhava muito tesa,
A sentir que o momento era profundo.
Então me vi diante da varanda
Do herdeiro de meu Netto general,
Que tirou o chapéu, como se manda
E mostrando os cabelos cor de nata
Disse: "Voltaste, minha princesa, meu Graal,
Que te espero, há muito, desde el Plata."
(sem data)
terça-feira, 22 de julho de 2008
O umbu e o vento ( de Alma Welt)
Verdes anos verde este meu pampa
Eterno velho e novo a cada dia
Quero plantar-me aqui não numa campa
Nem como aquele umbu que renascia
Mais forte e sinistro após cortado
Diziam os que o quiseram esquecido
Pois que como forca fora usado
E logo o acreditaram fenecido.
Mas umbu frondoso e sobranceiro
Reinando na coxilha qual peão
Montado no seu pingo, ou no pampeiro
Que varre estes prados infinitos
Soprando como poderoso orgão
No sacro espaço de singelos ritos.
19/12/2006
Eterno velho e novo a cada dia
Quero plantar-me aqui não numa campa
Nem como aquele umbu que renascia
Mais forte e sinistro após cortado
Diziam os que o quiseram esquecido
Pois que como forca fora usado
E logo o acreditaram fenecido.
Mas umbu frondoso e sobranceiro
Reinando na coxilha qual peão
Montado no seu pingo, ou no pampeiro
Que varre estes prados infinitos
Soprando como poderoso orgão
No sacro espaço de singelos ritos.
19/12/2006
Pietà sulina (de Alma Welt)
Vinha o gaúcho troncho em sua sela
Ferido por adaga gravemente
Na mão direita a rédea como vela
A outra mão a segurar o rubro ventre.
E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.
E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina
Pois agora já estava entre os seus
Como o outro naquela estampa fina
Fixando a morte insólita de um deus.
(sem data)
Ferido por adaga gravemente
Na mão direita a rédea como vela
A outra mão a segurar o rubro ventre.
E estacando o seu pingo emfim cedeu,
Fez um aceno vago e foi caindo
Nos braços do Galdério que acorreu
A ampará-lo como a um guri dormindo.
E enquanto a alma ia sem adeus
Eu gravei a cena em minha retina
Como uma Pietà leda e sulina
Pois agora já estava entre os seus
Como o outro naquela estampa fina
Fixando a morte insólita de um deus.
(sem data)
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Conluios da Noite (de Alma Welt)
Elevam-se na noite os murmúrios
Das conspirações que aqui houveram
Nos tempos farroupilhas, e os conluios
Que nos ecos desta casa ainda prosperam.
E ouço: Canabarro se rebela
Contra Bento nosso grande comandante
Enquanto o bravo Netto se revela
O mais fiel amigo doravante.
Mas bah! são as prendas que os inspiram
Com seu doce pranto derradeiro
Na paixão ardente em que deliram,
Juntas, pelos quartos, e ao fogão
Cujas cinzas liberam um rico cheiro
Que, alta noite, invade o casarão...
02/10/2006
Das conspirações que aqui houveram
Nos tempos farroupilhas, e os conluios
Que nos ecos desta casa ainda prosperam.
E ouço: Canabarro se rebela
Contra Bento nosso grande comandante
Enquanto o bravo Netto se revela
O mais fiel amigo doravante.
Mas bah! são as prendas que os inspiram
Com seu doce pranto derradeiro
Na paixão ardente em que deliram,
Juntas, pelos quartos, e ao fogão
Cujas cinzas liberam um rico cheiro
Que, alta noite, invade o casarão...
02/10/2006
quinta-feira, 3 de julho de 2008
De tangos e fandangos (de Alma Welt)
Andei pelo bosque esta manhã
Para colher amoras e até
Mesmo umas florzitas, no afã
De enfeitar a mesa do café
Pro desjejum dos hóspedes, uns gringos
Que dormem cansados do fandango
Que fizemos em honra dos amigos
Vindos de outros pagos com seu tango.
Bah! Como foi belo ver os pares
Evoluirem naquela perfeição
De argentinos passos sem azares!
Mas Rôdo a honra nos salvou
Ao fazer cantar o seu tacão
Que na lança estendida nem relou...*
17/07/2006
Nota
* ... que na lança estendida nem relou- Alma se refere à "chula" que o nosso irmão Rodo dança de maneira admirável desde guri.(Lucia Welt)
Chula- Dança folclórica do Rio Grande do Sul, executada por homens e cuja coreografia, com muitas sapateadas, exige grande habilidade do dançarino. É acompanhada de palmas, violão, cavaquinho, pandeiros e castanholas.(1)
A chula tradicional é dançada da seguinte forma: Dois dançarinos ficavam frente a frente tendo entre si uma lança de quatro metros de comprimento. Cada um dos oponentes executava uma seqüência de difíceis passos coreográficos indo até a extremidade oposta da lança e retornando ao seu lugar de origem.(2)
1. Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil - Larousse Cultural - Nova Cultural - 1995
2. Texto extraído do site do Grupo de Danças Porteira de Guapos: www.nh.conex.com.br/user/apollo
Para colher amoras e até
Mesmo umas florzitas, no afã
De enfeitar a mesa do café
Pro desjejum dos hóspedes, uns gringos
Que dormem cansados do fandango
Que fizemos em honra dos amigos
Vindos de outros pagos com seu tango.
Bah! Como foi belo ver os pares
Evoluirem naquela perfeição
De argentinos passos sem azares!
Mas Rôdo a honra nos salvou
Ao fazer cantar o seu tacão
Que na lança estendida nem relou...*
17/07/2006
Nota
* ... que na lança estendida nem relou- Alma se refere à "chula" que o nosso irmão Rodo dança de maneira admirável desde guri.(Lucia Welt)
Chula- Dança folclórica do Rio Grande do Sul, executada por homens e cuja coreografia, com muitas sapateadas, exige grande habilidade do dançarino. É acompanhada de palmas, violão, cavaquinho, pandeiros e castanholas.(1)
A chula tradicional é dançada da seguinte forma: Dois dançarinos ficavam frente a frente tendo entre si uma lança de quatro metros de comprimento. Cada um dos oponentes executava uma seqüência de difíceis passos coreográficos indo até a extremidade oposta da lança e retornando ao seu lugar de origem.(2)
1. Sociedade e Cultural - Enciclopédia Compacta Brasil - Larousse Cultural - Nova Cultural - 1995
2. Texto extraído do site do Grupo de Danças Porteira de Guapos: www.nh.conex.com.br/user/apollo
segunda-feira, 30 de junho de 2008
A fronteira (de Alma Welt)
Venham por aqui, ó Lucia, ó Rodo
E também a Solange, o bando todo...
É uma senda estreita no final
Que leva à Salamanca do Jarau!
É, sim! Eu descobri aqui na estância
O tesouro do gaúcho, é vero! juro!
Na entrada, sei, é um pouco escuro
Qu'isto não é nenhum jardim da infância.
Mas olhem, prometam, não espalhem,
A Mutti não pode saber disso,
E as preces da Matilde nada valem
Se formos proibidos de brincar
E descobrir o mundo fronteiriço
Que há além das uvas no lagar...
11/05/2006
E também a Solange, o bando todo...
É uma senda estreita no final
Que leva à Salamanca do Jarau!
É, sim! Eu descobri aqui na estância
O tesouro do gaúcho, é vero! juro!
Na entrada, sei, é um pouco escuro
Qu'isto não é nenhum jardim da infância.
Mas olhem, prometam, não espalhem,
A Mutti não pode saber disso,
E as preces da Matilde nada valem
Se formos proibidos de brincar
E descobrir o mundo fronteiriço
Que há além das uvas no lagar...
11/05/2006
O últimos brindes (de Alma Welt)
Por ser filha amada de meu pai
Eu pude acreditar em ser poeta,
E suspeito que o mundo um dia vai
Fruir e degustar a predileta
Nascida sob estrela de abastança,
Interior, quero dizer, e dadivosa
Meu desejo é desbordar-me generosa
Como o cálice servido na festança
Quando o "gáltcho" grato na querência
Começa a discursar aos seus compadres
E a mão já lhe treme em conseqüência
Pois os brindes brotam já em borbotões,
Junto com as juras, aos confrades,
De veraz fidelidade entre peões...
19/12/2006
Eu pude acreditar em ser poeta,
E suspeito que o mundo um dia vai
Fruir e degustar a predileta
Nascida sob estrela de abastança,
Interior, quero dizer, e dadivosa
Meu desejo é desbordar-me generosa
Como o cálice servido na festança
Quando o "gáltcho" grato na querência
Começa a discursar aos seus compadres
E a mão já lhe treme em conseqüência
Pois os brindes brotam já em borbotões,
Junto com as juras, aos confrades,
De veraz fidelidade entre peões...
19/12/2006
domingo, 15 de junho de 2008
Meu Pampa verdadeiro (de Alma Welt)
Para além do meu jardim e do vinhedo
Começa o meu pampa verdadeiro
Bem mais que de um mar o arremedo,
As ondas em que o “gaucho” é marinheiro:
As coxilhas ondulantes, femininas,
Semeadas de intermitentes frondes
Dos umbus que coroam as colinas
Onde senta o peão mirando os “ondes”
Para logo remontar o fiel pampa
A galope desatado atrás da rês
Ou as bolas girando, aquelas três
Pra bolear as pernas de uma ema,
Ou o laço enroscar num par de guampa
Como quem lança o fecho de um poema.
04/12/2006
Começa o meu pampa verdadeiro
Bem mais que de um mar o arremedo,
As ondas em que o “gaucho” é marinheiro:
As coxilhas ondulantes, femininas,
Semeadas de intermitentes frondes
Dos umbus que coroam as colinas
Onde senta o peão mirando os “ondes”
Para logo remontar o fiel pampa
A galope desatado atrás da rês
Ou as bolas girando, aquelas três
Pra bolear as pernas de uma ema,
Ou o laço enroscar num par de guampa
Como quem lança o fecho de um poema.
04/12/2006
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Meu evangelho do Pampa (de Alma Welt)
Por esta manhã que me acordou
Eu sigo pela senda renovada
Que me confirma onde Amor brotou
Quando dei por mim, tão deslumbrada
E era a guria apaixonada
Por tudo e por todos nestes prados
Em que renasci, pois transplantada
Viera de uma terra de emigrados,
Lá do Novo Hamburgo, Hamburgo Velho
Que a mim me dera só germanidade
Faltando do meu Pampa o evangelho
Que consiste na amplidão da herdade
E o meu senso de vôo (bah! não riam!)
Em que corpo e alma se uniriam...
16/11/2006
Eu sigo pela senda renovada
Que me confirma onde Amor brotou
Quando dei por mim, tão deslumbrada
E era a guria apaixonada
Por tudo e por todos nestes prados
Em que renasci, pois transplantada
Viera de uma terra de emigrados,
Lá do Novo Hamburgo, Hamburgo Velho
Que a mim me dera só germanidade
Faltando do meu Pampa o evangelho
Que consiste na amplidão da herdade
E o meu senso de vôo (bah! não riam!)
Em que corpo e alma se uniriam...
16/11/2006
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Pampianas brincadeiras (de Alma Welt)
Deliciosas manhãs deste meu prado
Em que ponho-me a correr e perseguir
Alguns desgarres do meu gado
Apenas pra cansar e divertir!
E me vejo ainda guria com meu Rôdo,
Quando este a girar boleadeiras
Tentava derrubar, ah! ledo engôdo
Uma rês ou uma ema, em brincadeiras,
E logo aquele dia, em que afinal
Lançou o artefato em minhas pernas
Quando eu fugia também, como animal
Que ao cair, de quatro, muito brusco
Penetrou-me, mas com palavras ternas:
"Eis a novilha que na verdade busco!"
_____________________________
Nota da editora
Sobre este episódio explicitamente erótico, um tanto picaresco, há uma variante, um outro soneto pampiano entitulado "A vitela" , o que sugere que se trata de fato ocorrido mesmo com a Alma em sua adolescência com Rôdo, e que a emocionou ou divertiu. Vou transcrevê-lo aqui:
A vitela (de Alma Welt)
(119)
Entre minhas lembranças da infância
Está aquele dia inusitado
Em que no prado e à distância,
Fui laçada e derrubada feito gado
Pelo meu irmão que quis mostrar
Que havia aprendido a laçar:
Enroscada pelos pés me vi caída,
Nem assim querendo dar-me por vencida.
Mas com o laço amarrou-me bem veloz
As mãos como se fora uma vitela,
Levantando meu vestido até a costela,
E estando eu de quatro como rês
Rasgou-me a calcinha pelo cós...
Haja soneto pra contar o que ele fez!
03/09/2006
Em que ponho-me a correr e perseguir
Alguns desgarres do meu gado
Apenas pra cansar e divertir!
E me vejo ainda guria com meu Rôdo,
Quando este a girar boleadeiras
Tentava derrubar, ah! ledo engôdo
Uma rês ou uma ema, em brincadeiras,
E logo aquele dia, em que afinal
Lançou o artefato em minhas pernas
Quando eu fugia também, como animal
Que ao cair, de quatro, muito brusco
Penetrou-me, mas com palavras ternas:
"Eis a novilha que na verdade busco!"
_____________________________
Nota da editora
Sobre este episódio explicitamente erótico, um tanto picaresco, há uma variante, um outro soneto pampiano entitulado "A vitela" , o que sugere que se trata de fato ocorrido mesmo com a Alma em sua adolescência com Rôdo, e que a emocionou ou divertiu. Vou transcrevê-lo aqui:
A vitela (de Alma Welt)
(119)
Entre minhas lembranças da infância
Está aquele dia inusitado
Em que no prado e à distância,
Fui laçada e derrubada feito gado
Pelo meu irmão que quis mostrar
Que havia aprendido a laçar:
Enroscada pelos pés me vi caída,
Nem assim querendo dar-me por vencida.
Mas com o laço amarrou-me bem veloz
As mãos como se fora uma vitela,
Levantando meu vestido até a costela,
E estando eu de quatro como rês
Rasgou-me a calcinha pelo cós...
Haja soneto pra contar o que ele fez!
03/09/2006
terça-feira, 4 de março de 2008
Vinhedo amargo (de Alma Welt)
25
Havia aqui em nossa estância
Uma jovem peona colhedeira
Que amava um guri desde criança
Mas os pais a mantinham na coleira.
A verdade é que mesmo vigiados
Eles conseguiam se encontrar
Na hora da colheita ou dos cuidados
No meio do vinhedo, para amar.
Mas morto com um tiro no seu peito
Eis que o rapaz é encontrado
E o pai da moça era o suspeito,
Até que a guria tão sofrida
Revelou que outro era o culpado:
O irmão que a amara toda a vida.
Havia aqui em nossa estância
Uma jovem peona colhedeira
Que amava um guri desde criança
Mas os pais a mantinham na coleira.
A verdade é que mesmo vigiados
Eles conseguiam se encontrar
Na hora da colheita ou dos cuidados
No meio do vinhedo, para amar.
Mas morto com um tiro no seu peito
Eis que o rapaz é encontrado
E o pai da moça era o suspeito,
Até que a guria tão sofrida
Revelou que outro era o culpado:
O irmão que a amara toda a vida.
O pastor sem remorsos (de Alma Welt)
24
Um jovem pastor aqui da estância
Resolveu se aproximar do casarão:
Não vira piscina em sua infância
E queria ver a filha do patrão
Nadando, como sempre, assim pelada,
E escondido, então, atrás da sede,
Ali fica por quase uma jornada,
Enquanto uma ovelha se escafede.
E quando afinal interpelado
Por quê e se não ia arrepender,
Já que uma ovelha até morreu
Ele com o olhar emocionado
Disse afinal, sustentando o meu:
"Eu mesmo já podia até morrer..."
04/01/2007
Um jovem pastor aqui da estância
Resolveu se aproximar do casarão:
Não vira piscina em sua infância
E queria ver a filha do patrão
Nadando, como sempre, assim pelada,
E escondido, então, atrás da sede,
Ali fica por quase uma jornada,
Enquanto uma ovelha se escafede.
E quando afinal interpelado
Por quê e se não ia arrepender,
Já que uma ovelha até morreu
Ele com o olhar emocionado
Disse afinal, sustentando o meu:
"Eu mesmo já podia até morrer..."
04/01/2007
De facas e corações (de Alma Welt)
23
Meu pai tinha um peão na estância
Que parecia um anjo de bombachas:
Seu olhar ficara em sua infância,
Mas na cintura ostentava faixas
Que abrigavam a dura faca de peão,
E que ah! não deveria estar ali,
Pois foi ela que no tribunal do Juri
Condenou-o a dez anos de prisão.
E eu que vira o caso se enrolar,
Embora fosse uma guria idealista
Cheguei a conclusão nada simplista:
Que entre gesto, faca e os corações
Havia todo um mundo de razões
Qu'eu levaria a vida a desvendar.
02/01/2007
Meu pai tinha um peão na estância
Que parecia um anjo de bombachas:
Seu olhar ficara em sua infância,
Mas na cintura ostentava faixas
Que abrigavam a dura faca de peão,
E que ah! não deveria estar ali,
Pois foi ela que no tribunal do Juri
Condenou-o a dez anos de prisão.
E eu que vira o caso se enrolar,
Embora fosse uma guria idealista
Cheguei a conclusão nada simplista:
Que entre gesto, faca e os corações
Havia todo um mundo de razões
Qu'eu levaria a vida a desvendar.
02/01/2007
Perigos do não mirar (de Alma Welt)
22
Dedicarei ao Galdério uma loa
Por peitar um peão desembainhado,
Que ao que parece o queria degolado
Por ser fiel amigo da patroa.
Então, assim que estava desarmado
Interpelei o peão severamente:
"Por quê estás assim tão exaltado,
Não vês que o Galdério é boa gente
E repete as ordens que lhe passo?
Como a todos, pra que ninguém se fira
Acaso não te dou o mesmo espaço?
E o gaúcho envergonhado revelou:
"Não suporto saber que tu le mira
Nos olhos e os meus tu nunca olhou!"
(sem data)
Dedicarei ao Galdério uma loa
Por peitar um peão desembainhado,
Que ao que parece o queria degolado
Por ser fiel amigo da patroa.
Então, assim que estava desarmado
Interpelei o peão severamente:
"Por quê estás assim tão exaltado,
Não vês que o Galdério é boa gente
E repete as ordens que lhe passo?
Como a todos, pra que ninguém se fira
Acaso não te dou o mesmo espaço?
E o gaúcho envergonhado revelou:
"Não suporto saber que tu le mira
Nos olhos e os meus tu nunca olhou!"
(sem data)
As ausências do Galdério (de Alma Welt)
21
Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.
Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"
"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"
Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."
09/11/2006
Galdério, factotum incansável,
Vem ultimamente se ausentando
Com a sua charrete indispensável
Nos tempos do Vati aqui reinando.
Então hoje cedo fui mais fundo:
"Galdo, me permite perguntar
O que tanto fazes lá no mundo
Onde "gáltcho" como tu não tem lugar?"
"Não foste tu mesmo que disseste
Que querias morrer sem mais deixar
A planura onde está tudo que preste?"
Mas o gringo sério logo emenda:
"Princesa, tenho ido alimentar
O peão de quem mi madre foi a prenda."
09/11/2006
De sombras e aromas (de Alma Welt)
20
As sombras do passado desta estância
Continuam a crescer e a ameaçar.
As noites geram medos e a ânsia
De uma antiga dívida saldar:
A do boche, o nosso avô Joachim
Que ao comprar a terra em desgraça
Deixou pros meus irmãos e para mim
Um patrimônio com peso de uma raça.
Aqui acamparam os farroupilhas,
Nesta mesa além do clã do Valentim
Sentou Bento Gonçalves com as filhas.
Sete mulheres deitaram-se nos quartos
E ainda sinto o cheiro do alecrim
E os gemidos, dos amores e dos partos...
05/12/2006
As sombras do passado desta estância
Continuam a crescer e a ameaçar.
As noites geram medos e a ânsia
De uma antiga dívida saldar:
A do boche, o nosso avô Joachim
Que ao comprar a terra em desgraça
Deixou pros meus irmãos e para mim
Um patrimônio com peso de uma raça.
Aqui acamparam os farroupilhas,
Nesta mesa além do clã do Valentim
Sentou Bento Gonçalves com as filhas.
Sete mulheres deitaram-se nos quartos
E ainda sinto o cheiro do alecrim
E os gemidos, dos amores e dos partos...
05/12/2006
segunda-feira, 3 de março de 2008
Sendas farroupilhas (de Alma Welt)
19
Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.
E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada
Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.
Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...
14/01/2007
Caminho pelas sendas farroupilhas
Que ainda se vêem aqui no prado,
E serpenteiam servindo como trilhas
Para os peões de hoje e nosso gado.
E me vejo de repente acompanhada
De visões dos nossos companheiros
Montados, zurzidos por pampeiros
A procurar a sua última invernada
Logo sofrida, espectral, penada
Pois que nunca houve paz impune
Pros que vivem e morrem pela espada.
Então volto ao casarão atormentada
Como alguém que a guerra ainda pune
Com os ecos da última emboscada...
14/01/2007
Episódio matinal (de Alma Welt)
18
Manhãs gloriosas desta estância!
Com a saia arrepanhada, entre coxilhas
Persigo eu, a rir, minhas novilhas,
Revivendo um prazer da minha infância.
Mas, bah! logo me vejo observada
Por um "gáltcho" sério e sisudo
Dos que não riem senão de madrugada
Quando em torno da chaleira podem tudo.
Então acerto o passo disfarçando
Como cabe à prenda ou filha de patrão
Deixando a barra do vestido ir ao chão
E faço um cumprimento de cabeça
Digno e sincero, esperando
Que a ordem universal restabeleça.
08/04/2004
______________________________________
Nota da editora
Este encantador soneto pampiano é, ao meu ver, um dos melhores testemunhos da capacidade da Alma de fazer poesia e crônica ao mesmo tempo, no espaço exíguo de 14 versos, captando sentidos e estórias sutis de mínimos acontecimentos, aparentemente triviais, que à maioria das pessoas passariam despercebidos. (Lucia Welt)
Manhãs gloriosas desta estância!
Com a saia arrepanhada, entre coxilhas
Persigo eu, a rir, minhas novilhas,
Revivendo um prazer da minha infância.
Mas, bah! logo me vejo observada
Por um "gáltcho" sério e sisudo
Dos que não riem senão de madrugada
Quando em torno da chaleira podem tudo.
Então acerto o passo disfarçando
Como cabe à prenda ou filha de patrão
Deixando a barra do vestido ir ao chão
E faço um cumprimento de cabeça
Digno e sincero, esperando
Que a ordem universal restabeleça.
08/04/2004
______________________________________
Nota da editora
Este encantador soneto pampiano é, ao meu ver, um dos melhores testemunhos da capacidade da Alma de fazer poesia e crônica ao mesmo tempo, no espaço exíguo de 14 versos, captando sentidos e estórias sutis de mínimos acontecimentos, aparentemente triviais, que à maioria das pessoas passariam despercebidos. (Lucia Welt)
Noturno (de Alma Welt)
17)
Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.
Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal
Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas
Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...
15/12/2006
Entre o casarão e o vinhedo
Está o jardim dos meus amores
Que de dia acolhe o folguedo
De guris e gurias entre as flores.
Mas nele eu navego em noite cálida
Sob a luz de uma lua espectral
Refletida e tornando-me mais pálida
Como pequena gôndola irreal
Que singra entre touceiras prateadas
Deixando rastro: cintilantes vagalumes
Companheiros de noturnas caminhadas
Sob a guarda do Negrinho e as Três Marias
Que ainda me protegem dos queixumes
Dos sonhos mortos e das fantasmagorias...
15/12/2006
Manhã (de Alma Welt)
16
Matilde, prepara-me o amargo
Que quero sair e pôr-me ao largo
Navegando ao vento na campina
Como nau que a branca vela empina.
A brisa a fluir no azul profundo,
Pode mais propício estar o mundo?
Quem foi que disse ser um sacrifício
A vida, o viver e seu ofício?
Coalhado de pássaros qual flores
A agitar-se como agitam-se os amores,
Olha aquele umbu ali ao sol!
Dá-me, Matilde, uma côdea de pão
Que vou a mastigar com o chimarrão
Enquanto examinas meu lençol!*
29/11/2006
Nota da editora;
Como alguns já perceberam por outros sonetos e crônicas, Matilde, nossa ex-babá, teimava em continuar vigiando a Alma, e até a examinar os lençóis de sua "princesa" para coibí-la de seu "pecado", pois tinha conhecimento, desde sempre, da relação da Alma com seu irmão. Minha irmã, espirito livre e cheia de senso de humor tratava Matilde com enorme carinho como a uma mãe devotada, embora um tanto superprotetora e até rabujenta. Nunca vi a Alma se aborrecer realmente com a Matilde. (Lúcia Welt)
Matilde, prepara-me o amargo
Que quero sair e pôr-me ao largo
Navegando ao vento na campina
Como nau que a branca vela empina.
A brisa a fluir no azul profundo,
Pode mais propício estar o mundo?
Quem foi que disse ser um sacrifício
A vida, o viver e seu ofício?
Coalhado de pássaros qual flores
A agitar-se como agitam-se os amores,
Olha aquele umbu ali ao sol!
Dá-me, Matilde, uma côdea de pão
Que vou a mastigar com o chimarrão
Enquanto examinas meu lençol!*
29/11/2006
Nota da editora;
Como alguns já perceberam por outros sonetos e crônicas, Matilde, nossa ex-babá, teimava em continuar vigiando a Alma, e até a examinar os lençóis de sua "princesa" para coibí-la de seu "pecado", pois tinha conhecimento, desde sempre, da relação da Alma com seu irmão. Minha irmã, espirito livre e cheia de senso de humor tratava Matilde com enorme carinho como a uma mãe devotada, embora um tanto superprotetora e até rabujenta. Nunca vi a Alma se aborrecer realmente com a Matilde. (Lúcia Welt)
A Abantesma (de Alma Welt)
15
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota da editora:
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt
Ó casarão da minha infância
E que me verá adormecida
No último sono, já sem vida,
Para ser a abantesma desta estância,
Por aqui onde vivi a fantasia
De ser mulher-poema e musa errante
Do meu bosque, do jardim, da pradaria
E de todo o meu pampa circundante
E quando estiver morta, que me vejam
A galopar sob o céu da Branca Via
Nua como em vida já se ouvia
Ou mesmo que não muito créus estejam,
Afirmem pra seus piás e filhas:
"Alma vagou esta noite nas coxilhas!"
18/01/2007
Nota da editora:
Fiquei pasma com este belíssimo soneto, e o achei profético, pois é realmente o que tem acontecido por aqui: Alma tem sido vista pelos peões e suas mulheres e filhas, tanto quanto por mim, acreditem vocês ou não. Seu espectro muito branco, translúcido, vaga pelo jardim, pelo pomar e pelas colinas, perdendo-se no bosque. Eu já o segui três vezes, e numa delas encontrei na praia da cascata, brilhando á luz da lua, o anel de prata de lenço de vaqueiro que serviu para a identificação de seu assassino. Mas isto é uma penosa história que fico devendo e contarei mais tarde aqui mesmo neste blog. (Lucia Welt
A primadonna ou a Ópera dos Pampas
17
As minhas pradarias vou cantar
Como nenhuma prenda já o fez,
Ser a guria pampiana que desfez
O mito da mulher feita pro lar,
Que incapaz de montar feito um peão
E laçar, lançar boleadeiras,
Ou comandar essas videiras,
Seria uma chinoca de patrão;
Sim, eu vou cantar mais alto,
Ser uma primadonna sem maus-tratos,
Cuja voz seria de contralto,
Nesta pampiana ópera divina
Pois o Grande Diretor fechou contratos
Somente para vozes como a minha.
13/11/2006
As minhas pradarias vou cantar
Como nenhuma prenda já o fez,
Ser a guria pampiana que desfez
O mito da mulher feita pro lar,
Que incapaz de montar feito um peão
E laçar, lançar boleadeiras,
Ou comandar essas videiras,
Seria uma chinoca de patrão;
Sim, eu vou cantar mais alto,
Ser uma primadonna sem maus-tratos,
Cuja voz seria de contralto,
Nesta pampiana ópera divina
Pois o Grande Diretor fechou contratos
Somente para vozes como a minha.
13/11/2006
A dama da geada (de Alma Welt
16
Esta noite caiu grande geada
Num amanhecer quase europeu,
E vi a pradaria esbranquiçada
Como se fora neve e como eu
Que saí pela campina e evaneci.
"Branca sobre branco" diz Galdério,
Que rindo quis dizer que me perdi,
Pois que não me leva muito a sério.
Mas respondi no mesmo diapasão:
"Não me viste, ó peão, a cabeleira
Vermelha, produzindo aquela esteira
De cometa fiel nas pradarias?
Era eu, e por certo não sabias
Que era mulher, estrela-guia de peão..."
12/07/2006
Nota da editora:
Os leitores que me perdoem se me acham supeita, como irmã da poetisa, para emitir um juizo como este: creio que estou diante de uma obra-prima do soneto universal, em que pese o sabor regionalista típico da Alma nesta sua fase pampiana.
Esta noite caiu grande geada
Num amanhecer quase europeu,
E vi a pradaria esbranquiçada
Como se fora neve e como eu
Que saí pela campina e evaneci.
"Branca sobre branco" diz Galdério,
Que rindo quis dizer que me perdi,
Pois que não me leva muito a sério.
Mas respondi no mesmo diapasão:
"Não me viste, ó peão, a cabeleira
Vermelha, produzindo aquela esteira
De cometa fiel nas pradarias?
Era eu, e por certo não sabias
Que era mulher, estrela-guia de peão..."
12/07/2006
Nota da editora:
Os leitores que me perdoem se me acham supeita, como irmã da poetisa, para emitir um juizo como este: creio que estou diante de uma obra-prima do soneto universal, em que pese o sabor regionalista típico da Alma nesta sua fase pampiana.
O Território Mágico (de Alma Welt )
15
Por uma senda do Pampa, invisível
Caminha o rebanho encantado
Para o território demarcado
Das Missões, onde o Sul é imperecível.
Ali, de noite, reunem-se os peões
Com suas bombachas, esporas e tacões;
As lanças farroupilhas ainda açulam
Imperiais que no sonho capitulam.
Anita é avistada, ah! tão bela!
E o bravo Giusepe se revela
O amante fiel e apaixonado
Que retorna ao Sul com sua nave
Para buscar do amor a própria chave
Que restou perdida neste prado...
15/01/2006
Por uma senda do Pampa, invisível
Caminha o rebanho encantado
Para o território demarcado
Das Missões, onde o Sul é imperecível.
Ali, de noite, reunem-se os peões
Com suas bombachas, esporas e tacões;
As lanças farroupilhas ainda açulam
Imperiais que no sonho capitulam.
Anita é avistada, ah! tão bela!
E o bravo Giusepe se revela
O amante fiel e apaixonado
Que retorna ao Sul com sua nave
Para buscar do amor a própria chave
Que restou perdida neste prado...
15/01/2006
A Infanta (de Alma Welt)
14)
Muito viajei pelas cidades
Do mundo real e as da mente,
Europa e os reinos do Oriente
E os das lendas de antigas deidades.
Mas o Pampa, o Pampa é minha raíz...
Aqui vou mais longe ao galopar
E perco-me no mundo por um triz
E encontro meu espaço em pleno ar!
Bravos gáutchos* montados e em seus zelos
Tocam seus chapéus com os dois dedos
Ao verem-me correndo tão sem medos,
Infanta de meu reino, ou já rainha,
Meio louca, eu sei, soltos cabelos,
Mas ao passar saudada pela Vinha!
18/01/2007
Muito viajei pelas cidades
Do mundo real e as da mente,
Europa e os reinos do Oriente
E os das lendas de antigas deidades.
Mas o Pampa, o Pampa é minha raíz...
Aqui vou mais longe ao galopar
E perco-me no mundo por um triz
E encontro meu espaço em pleno ar!
Bravos gáutchos* montados e em seus zelos
Tocam seus chapéus com os dois dedos
Ao verem-me correndo tão sem medos,
Infanta de meu reino, ou já rainha,
Meio louca, eu sei, soltos cabelos,
Mas ao passar saudada pela Vinha!
18/01/2007
Lendas do meu bosque (de Alma Welt)
13
O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.
Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.
"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."
"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."
15/01/2007
O meu bosque reserva o seu segredo
Para quem tem olhos e ouvidos,
Poucos, na verdade, os escolhidos
Capazes de adentrarem-no sem medo.
Principalmente quando no crepúsculo
Principiam as fantasmagorias
E aquele vago lusco-fusco
Produzido por ocultas fadarias.
"Nada de bosque!" alertava a Matilde
"Que ali o malígno espreita
Tanto guria nobre como humilde."
"Conheci uma que sumiu e não mais vi
Para me contar que coisa é feita
Com aquelas que se agacham pro xixi..."
15/01/2007
Um sonho da Alma (de Alma Welt)
12
Decidi ser mãe mais uma vez
(há muito perdi uma criança...)
Nem que tenha que laçar como uma rês
Um peão, um macho, aqui na estância.
Mas caí na esparrela de contar
Meu plano para a pobre da Matilde,
Que só faltou com uma vara me açoitar,
Dizendo: " Bah! Como a rainha é humilde!"
"Mas não podes, tu tens que respeitar-te!
Não vás deitando com qualquer gaudério
Que podes com certeza machucar-te..."
"E depois, como livrar-te do infeliz,
Que deitar-te contigo, quem não quis?
E já temos alguns no cemitério!"
19/01/2007
Decidi ser mãe mais uma vez
(há muito perdi uma criança...)
Nem que tenha que laçar como uma rês
Um peão, um macho, aqui na estância.
Mas caí na esparrela de contar
Meu plano para a pobre da Matilde,
Que só faltou com uma vara me açoitar,
Dizendo: " Bah! Como a rainha é humilde!"
"Mas não podes, tu tens que respeitar-te!
Não vás deitando com qualquer gaudério
Que podes com certeza machucar-te..."
"E depois, como livrar-te do infeliz,
Que deitar-te contigo, quem não quis?
E já temos alguns no cemitério!"
19/01/2007
A casamenteira (de Alma Welt)
11
Pintei-me nua com grande realismo,
Que ao ver a tela a Matilde até gritou:
"Guria, apaga tudo, isso é nudismo!
Já não basta viveres dando show?"
"Eu vejo que és nudista empedernida
E estás cada vez mais descarada,
Se eu fosse a tua mãe, a falecida,
Ia dar-te era mais muita palmada!"
"Eu sei, tu és guapa, mas te guarda,
Vai por mim, que sou casamenteira.
Quem quererá o que não se resguarda?"
"Se te escondes porfim te esquecerão
E haverá alguém que ainda não
Te viu pelada e pague entrada inteira..."
12/01/2007
Pintei-me nua com grande realismo,
Que ao ver a tela a Matilde até gritou:
"Guria, apaga tudo, isso é nudismo!
Já não basta viveres dando show?"
"Eu vejo que és nudista empedernida
E estás cada vez mais descarada,
Se eu fosse a tua mãe, a falecida,
Ia dar-te era mais muita palmada!"
"Eu sei, tu és guapa, mas te guarda,
Vai por mim, que sou casamenteira.
Quem quererá o que não se resguarda?"
"Se te escondes porfim te esquecerão
E haverá alguém que ainda não
Te viu pelada e pague entrada inteira..."
12/01/2007
Estórias de gaudérios (de Alma Welt)
10
Ontem caiu atroz tormenta
Sobre os campos e tetos da fazenda,
Relâmpagos que o povo ainda comenta
E um raio que começa virar lenda.
"Matou um novilho?"-um diz-“não, foi touro,
Não viste, tchê, aquele estouro?”
“Eu fui e vi sim a barrigada
Da rês, pela relva esparramada...”
“Bá, compadre, não me venha
Com conta de gaudério, te conheço.
Morreu somente um cão que desconheço,”
“Mas não importa, tchê, foi coisa brava,
O *Gaucho lá de cima desce a lenha
Quando encontra a porta com a trava!”
22/12/2006
Notas da editora:
* gaudério- (termo gauchesco) indivíduo
fanfarrão e sem eira nem beira.
..."o Gaucho lá de cima'- pronuncia-se "gáltcho", à maneira
dos "castelhanos" (uruguaios e argentinos). Alma coloca
na boca de seus personagens essa maneira saborosa
e regionalística de se referir a Deus, o que, na verdade, não é comum.
Ontem caiu atroz tormenta
Sobre os campos e tetos da fazenda,
Relâmpagos que o povo ainda comenta
E um raio que começa virar lenda.
"Matou um novilho?"-um diz-“não, foi touro,
Não viste, tchê, aquele estouro?”
“Eu fui e vi sim a barrigada
Da rês, pela relva esparramada...”
“Bá, compadre, não me venha
Com conta de gaudério, te conheço.
Morreu somente um cão que desconheço,”
“Mas não importa, tchê, foi coisa brava,
O *Gaucho lá de cima desce a lenha
Quando encontra a porta com a trava!”
22/12/2006
Notas da editora:
* gaudério- (termo gauchesco) indivíduo
fanfarrão e sem eira nem beira.
..."o Gaucho lá de cima'- pronuncia-se "gáltcho", à maneira
dos "castelhanos" (uruguaios e argentinos). Alma coloca
na boca de seus personagens essa maneira saborosa
e regionalística de se referir a Deus, o que, na verdade, não é comum.
De pássaros e plumas (de Alma Welt)
9
Uma vez, quando pequena, na varanda,
Eu vi aproximar-se um cavaleiro,
Estávamos no mês de Fevereiro
E chovia, assim, como Deus manda.
E ele vinha, com a viola, encolhido
Como pássaro molhado, e sem amigo.
Um gaúcho não ereto, mas transido,
Apeando e pedindo sopa e abrigo.
Meu pai, pela viola o fez entrar,
O levou, antes da ceia, pro chuveiro
Pra despir e com água quente se banhar.
E eu, piá, na porta do banheiro
Fiquei, ali, fascinada, a observar
Aquela ave novamente se emplumar...
18/12/2006
Uma vez, quando pequena, na varanda,
Eu vi aproximar-se um cavaleiro,
Estávamos no mês de Fevereiro
E chovia, assim, como Deus manda.
E ele vinha, com a viola, encolhido
Como pássaro molhado, e sem amigo.
Um gaúcho não ereto, mas transido,
Apeando e pedindo sopa e abrigo.
Meu pai, pela viola o fez entrar,
O levou, antes da ceia, pro chuveiro
Pra despir e com água quente se banhar.
E eu, piá, na porta do banheiro
Fiquei, ali, fascinada, a observar
Aquela ave novamente se emplumar...
18/12/2006
A minha casa, perdida (de Alma Welt)
8
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
A minha casa, perdida neste prado,
Brota do solo como se fora encantada,
O limo já recobre seu telhado
E as heras a põem meio assombrada.
E se as nuvens recobrem o meu pampa
E começa o tropel da trovoada
Eu sinto como se abrisse a tampa
Da caixa da Pandora atormentada
Que sou, esta Alma dividida
Entre a paixão da Arte e da Vida
A vagar pelo jardim anoitecido
Enquanto o Minuano não me venha
Ao encontro, buscar-me, e como senha
Entoar sussurrante o seu gemido...
18/12/2006
Quando chega o verão na pradaria (de Alma Welt)
7
Quando chega o verão na pradaria
Eu desfruto ainda o mesmo encanto
Pela revoada e a alegria
Dos pássaros, insetos e seu canto.
O verde agradecido, triunfante,
As árvores no plano ou nas coxilhas,
E salpicando a relva já fragrante,
As flores, as pequenas maravilhas.
E o peão singrando a todo pano
Atrás de um novilho desgarrado
Como a gota que faltava no oceano
Da boiada imensa, mar de guampa
Que se move como a maré do prado,
Ou como branca espuma do meu Pampa.
12/12/2006
Quando chega o verão na pradaria
Eu desfruto ainda o mesmo encanto
Pela revoada e a alegria
Dos pássaros, insetos e seu canto.
O verde agradecido, triunfante,
As árvores no plano ou nas coxilhas,
E salpicando a relva já fragrante,
As flores, as pequenas maravilhas.
E o peão singrando a todo pano
Atrás de um novilho desgarrado
Como a gota que faltava no oceano
Da boiada imensa, mar de guampa
Que se move como a maré do prado,
Ou como branca espuma do meu Pampa.
12/12/2006
A Grande Noite Austral (de Alma Welt)
6
Noite sobre a estância e meu jardim...
Desmesurada, intensa, apaixonada!
Por tê-la em ressonância dentro em mim,
Esta noite é maior, mais exaltada.
Grilos, sapos, dançam pirilampos
Em alegre fandango nestes prados;
Quero voar sonhando sobre os campos
Até o *castelhano e seus costados!
Ali os *gauchos sem acento me saúdam
E me convidam ao mate em seus *bivaques,
Cofiando seus pontudos cavanhaques...
E com eles vou mais longe, *rumo austral,
Me escancham na sela e se me *grudam
Pelos pagos num galope espectral!
20/12/2006
Notas da editora:
*..."o castelhano e seus costados"- Alma se refere
à fronteira do Uruguai.
* ...gauchos sem acento- No pampa uruguaio e argentino,
gaúcho se pronuncia "gáltcho".
* ..."seus bivaques"- Alma se refere assim às fogueiras noturnas de acampamento, onde a chaleira do mate ferve.
*... "rumo austral"- em direção ao sul, ao pampa uruguaio.
*... "se me grudam"- Alma quer dizer que,
"escanchada"(montada como homem)na sela,
na frente do cavaleiro, este a agarra por trás.
*... "pelos pagos"- por regiões remotas, desconhecidas.
Noite sobre a estância e meu jardim...
Desmesurada, intensa, apaixonada!
Por tê-la em ressonância dentro em mim,
Esta noite é maior, mais exaltada.
Grilos, sapos, dançam pirilampos
Em alegre fandango nestes prados;
Quero voar sonhando sobre os campos
Até o *castelhano e seus costados!
Ali os *gauchos sem acento me saúdam
E me convidam ao mate em seus *bivaques,
Cofiando seus pontudos cavanhaques...
E com eles vou mais longe, *rumo austral,
Me escancham na sela e se me *grudam
Pelos pagos num galope espectral!
20/12/2006
Notas da editora:
*..."o castelhano e seus costados"- Alma se refere
à fronteira do Uruguai.
* ...gauchos sem acento- No pampa uruguaio e argentino,
gaúcho se pronuncia "gáltcho".
* ..."seus bivaques"- Alma se refere assim às fogueiras noturnas de acampamento, onde a chaleira do mate ferve.
*... "rumo austral"- em direção ao sul, ao pampa uruguaio.
*... "se me grudam"- Alma quer dizer que,
"escanchada"(montada como homem)na sela,
na frente do cavaleiro, este a agarra por trás.
*... "pelos pagos"- por regiões remotas, desconhecidas.
O Fanal da Pradaria (de Alma Welt)
5
Verde Pampa de minha terra natal
Onde a alma navega entre as coxilhas
Aos olhos do peão como um fanal
Sobre mar pleno de encantadas ilhas!
Galopes infinitos, plenitude,
Integração cavalo e cavaleiro
O antigo ideal de completude:
O centauro uno e derradeiro...
Como eu mesma, peona e poetisa
Dualidade também de que me orgulho
Fiel pagã e grã-sacerdotisa
Desta porção extrema do país
De cuja saga imersa num mergulho
Eu volto como santa e meretriz!
24//11/2006
Verde Pampa de minha terra natal
Onde a alma navega entre as coxilhas
Aos olhos do peão como um fanal
Sobre mar pleno de encantadas ilhas!
Galopes infinitos, plenitude,
Integração cavalo e cavaleiro
O antigo ideal de completude:
O centauro uno e derradeiro...
Como eu mesma, peona e poetisa
Dualidade também de que me orgulho
Fiel pagã e grã-sacerdotisa
Desta porção extrema do país
De cuja saga imersa num mergulho
Eu volto como santa e meretriz!
24//11/2006
O Negrinho do Pastoreio (de Alma Welt)
4
Uma vez cavalguei nua pelo prado
E longe fui demais, tão imprudente!
Então meu pingo exausto, esgotado,
Negou-se a retornar, o inocente.
Ali estava eu longe da estância,
Nua e com frio, temerosa,
Perdida do meu pampa cor-de-rosa,
E despojada, retornada à minha infância.
E então, patética, febril e quase vômica
(não fora bela, eu sei, seria cômica)
Encontrei o meu negrinho pastoril:
Um menino negro como a noite
Que me deu sua camisa, um pernoite,
E sua escolta na manhã primaveril...
08/12/2006
Uma vez cavalguei nua pelo prado
E longe fui demais, tão imprudente!
Então meu pingo exausto, esgotado,
Negou-se a retornar, o inocente.
Ali estava eu longe da estância,
Nua e com frio, temerosa,
Perdida do meu pampa cor-de-rosa,
E despojada, retornada à minha infância.
E então, patética, febril e quase vômica
(não fora bela, eu sei, seria cômica)
Encontrei o meu negrinho pastoril:
Um menino negro como a noite
Que me deu sua camisa, um pernoite,
E sua escolta na manhã primaveril...
08/12/2006
Buenas falas (de Alma Welt)
3
O "gaucho" velho entrando se achegou
Trazido por meu pai à nossa sala
E pegando o meu queixo me olhou
Fundo nos olhos antes desta charla:
"Buenas, tchê, que prenda rareada!
Esta guria vai falar por todos nós,
Não somente pelos pais e os avós
Mas por todo o vinhedo e a peonada."
"Mas, bah!, co'esses olhos verde-guampa
Que atravessam o coração e causam dor
Não haverá par pra ela neste pampa!"
"Ela não se casará, infelizmente,
Mas não te preocupes que o amor
Será desta alma um bom servente..."
03/01/2007
O "gaucho" velho entrando se achegou
Trazido por meu pai à nossa sala
E pegando o meu queixo me olhou
Fundo nos olhos antes desta charla:
"Buenas, tchê, que prenda rareada!
Esta guria vai falar por todos nós,
Não somente pelos pais e os avós
Mas por todo o vinhedo e a peonada."
"Mas, bah!, co'esses olhos verde-guampa
Que atravessam o coração e causam dor
Não haverá par pra ela neste pampa!"
"Ela não se casará, infelizmente,
Mas não te preocupes que o amor
Será desta alma um bom servente..."
03/01/2007
O punhal nas águas (de Alma Welt)
2
Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",
E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.
E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa
Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.
(sem data)
____________________________
Nota da editora
Este soneto Pampiano me pareceu de sentido não muito claro. Alma por sua paixão pelo Pampa, conhecia bem os costumes gaúchos, mas por vezes narra coisas obscuras, costumes e tradições que não encontrei meios de conferir. É verdade, porém que não tenho a entrada e o trânsito que ela tinha nos ambientes e na intimidade dos peões. Entretanto encontrei dentro de sua arca um punhal de prata antigo, magnífico, todo lavrado, que pode ser esse do soneto, encontrado no fundo do laguinho da cascata. (Lucia Welt)
Com meu Rôdo como sempre mergulhei
No poço da cascata esta tarde
E nas águas transparentes encontrei
Um punhal de prata de "compadre",
E o mano diz ser lance muito antigo
Que fazia um "gaucho de honor"
Que tivesse sido salvo por amigo
Cuja arma tivera mais valor.
E lembrei-me então da narrativa
De um velho boiadeiro meu vizinho
De como o pai deixara a vida ativa
Por ter ficado eterno devedor
De um que de seu filho era padrinho,
E salvara de si mesmo em dor de amor.
(sem data)
____________________________
Nota da editora
Este soneto Pampiano me pareceu de sentido não muito claro. Alma por sua paixão pelo Pampa, conhecia bem os costumes gaúchos, mas por vezes narra coisas obscuras, costumes e tradições que não encontrei meios de conferir. É verdade, porém que não tenho a entrada e o trânsito que ela tinha nos ambientes e na intimidade dos peões. Entretanto encontrei dentro de sua arca um punhal de prata antigo, magnífico, todo lavrado, que pode ser esse do soneto, encontrado no fundo do laguinho da cascata. (Lucia Welt)
Pedindo emprêgo (de Alma Welt)
1
O peão batendo esporas se achegou
Tirando o chapéu mas sem modéstia,
E pra justificar que o tirou
Com rubro lenço secou a alta testa:
"Buenas, comadre, com quem falo?
Preciso falar com o patrão,
Venho vindo de lá da São Gonçalo
Onde dei de prancha num poltrão
Que sem competência ou a machesa
Perante o povo, a Pampa e o pampeiro
Quis tirar-me a china e a realeza.
Mas parece que falo com a rainha...
Poderás ver que sou bom cavaleiro
E mantenho minha faca na bainha."
10/07/2006
O peão batendo esporas se achegou
Tirando o chapéu mas sem modéstia,
E pra justificar que o tirou
Com rubro lenço secou a alta testa:
"Buenas, comadre, com quem falo?
Preciso falar com o patrão,
Venho vindo de lá da São Gonçalo
Onde dei de prancha num poltrão
Que sem competência ou a machesa
Perante o povo, a Pampa e o pampeiro
Quis tirar-me a china e a realeza.
Mas parece que falo com a rainha...
Poderás ver que sou bom cavaleiro
E mantenho minha faca na bainha."
10/07/2006
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